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Canal Indústria 4.0

A força dos ecossistemas: por que a manufatura aditiva cresce quando ninguém trabalha sozinho

Mais do que investir em impressoras 3D, países decidiram investir na construção de ecossistemas colaborativos

Por: Luan Saldanha Oliveira     

Sempre que discutimos o avanço da manufatura aditiva em um determinado país, é comum olharmos para indicadores como o número de impressoras instaladas, investimentos realizados ou grandes aplicações industriais. Esses fatores são importantes, mas existe um aspecto que, na minha opinião, costuma receber menos atenção do que merece. Os países que mais avançam em MA raramente fazem isso de forma desorganizada.

Por trás das empresas inovadoras, dos centros de pesquisa e dos cases de sucesso, existe quase sempre uma estrutura dedicada exclusivamente a conectar os diferentes atores do setor. É justamente essa capacidade de articulação que transforma iniciativas isoladas em estratégia nacional.

Nas últimas semanas, resolvi observar como alguns países europeus estão organizando seus ecossistemas de manufatura aditiva. E uma conclusão ficou bastante evidente: todos entenderam que desenvolver essa tecnologia exige colaboração permanente.

MA é, antes de tudo, um ecossistema

Diferentemente de outras tecnologias, a manufatura aditiva dificilmente evolui de maneira isolada. Sua adoção depende da interação entre fabricantes de equipamentos, desenvolvedores de materiais, fornecedores de software, prestadores de serviços, universidades, usuários industriais, organismos de certificação e formuladores de políticas públicas.

Se cada um atuar de forma independente, o crescimento acontece, mas lentamente. Quando esses atores passam a trabalhar de forma coordenada, o cenário muda completamente. Surgem projetos conjuntos, eventos especializados, programas de capacitação, missões internacionais, ações de divulgação, estatísticas do setor e uma representação institucional capaz de dialogar com governos e investidores. Foi exatamente esse caminho que diversos países decidiram seguir.

Espanha: uma associação para representar toda a cadeia

Na Espanha, esse papel é desempenhado pela ADDIMAT. Muito mais do que uma associação empresarial, ela reúne praticamente todos os segmentos ligados à manufatura aditiva: fabricantes de máquinas, fornecedores de materiais, empresas de software, prestadores de serviços, centros tecnológicos, universidades e usuários industriais. Atualmente, a rede reúne mais de uma centena de organizações distribuídas por toda a cadeia de valor.


Além de representar institucionalmente o setor, a ADDIMAT promove inteligência de mercado, ações de internacionalização, networking entre empresas, participação coletiva em feiras internacionais como a Formnext e iniciativas para acelerar a adoção industrial da tecnologia. Na prática, ela funciona como uma voz única para a manufatura aditiva espanhola.

Portugal: inovação construída em rede

Portugal adotou uma estratégia diferente, mas igualmente interessante. A INOV.AM nasceu como uma Agenda Mobilizadora para a Inovação Empresarial em Fabricação Aditiva, reunindo empresas de diversos setores, universidades, centros tecnológicos e instituições científicas em torno de objetivos comuns.

Entre suas prioridades estão o desenvolvimento de novos materiais e processos, a redução da dependência de equipamentos importados, a formação de profissionais especializados e o fortalecimento da presença internacional da indústria portuguesa.

Mais recentemente, a iniciativa também passou a organizar conferências internacionais, ampliando a troca de conhecimento e posicionando Portugal como um dos polos europeus em manufatura aditiva.

França: integrar todo o setor para acelerar a adoção

Na França, a estratégia também passa pela organização coletiva. A France Additive reúne empresas, startups, centros de pesquisa, universidades, usuários finais e instituições públicas em uma associação neutra e multissetorial. Sua missão é bastante clara: estruturar a cadeia francesa de impressão 3D, aumentar sua visibilidade e facilitar a adoção da manufatura aditiva pelas empresas.

O interessante é que sua atuação vai muito além da tecnologia. Ela envolve formação profissional, inovação, financiamento, desenvolvimento econômico, regulamentação, materiais, processos e integração entre diferentes segmentos industriais. Uma visão de ecossistema em seu sentido mais amplo.

Quando a colaboração ultrapassa as fronteiras nacionais

Talvez o exemplo mais interessante seja o movimento recente da própria Europa. Mesmo com iniciativas nacionais já consolidadas, diversos países entenderam que seria necessário atuar de forma conjunta para fortalecer a competitividade europeia frente aos demais mercados.

Foi assim que surgiu a AM-Europe, iniciativa coordenada pela CECIMO. O objetivo é representar o setor de manufatura aditiva junto às instituições europeias, promover políticas públicas, incentivar padronização, desenvolver competências profissionais e fortalecer a colaboração industrial entre os diferentes países do continente.

Em outras palavras, depois de fortalecer seus ecossistemas nacionais, a Europa passou a construir também um ecossistema continental.

E o Brasil?

Foi justamente observando movimentos como esses que comecei, há alguns anos, a me perguntar: Quem faz a manufatura aditiva acontecer no Brasil? Essa pergunta deu origem ao Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil. O objetivo inicial era relativamente simples: identificar fornecedores, prestadores de serviços, instituições de ciência e tecnologia, startups, eventos e demais atores que compõem nosso ecossistema.

Com o tempo, ficou claro que o Mapa era apenas o começo. O verdadeiro desafio não era apenas mostrar quem existe, mas conectar essas pessoas. Foi dessa percepção que nasceu a Aditiva Brasil.

Mais do que uma plataforma, ela representa uma tentativa de aproximar empresas, universidades, pesquisadores, fornecedores, usuários industriais e profissionais em torno de um propósito comum: fortalecer o ecossistema brasileiro de manufatura aditiva.

Ainda temos muito a construir

Apesar dos avanços que vimos nos últimos anos, acredito que ainda estamos apenas no início dessa jornada.

  • Precisamos ampliar o envolvimento das empresas.
  • Precisamos de maior participação das instituições de pesquisa.
  • Precisamos fortalecer a aproximação com órgãos governamentais.
  • Precisamos incentivar políticas públicas específicas para o setor.
  • Precisamos ampliar programas de capacitação, promover internacionalização, estimular novos projetos colaborativos e construir indicadores nacionais que nos permitam acompanhar a evolução do mercado.

Nenhuma dessas iniciativas depende apenas de uma empresa ou de uma instituição. Todas dependem da capacidade de trabalharmos juntos.

O maior investimento talvez não seja em máquinas

Sempre digo que a manufatura aditiva é muito mais do que uma tecnologia. Ela representa uma nova forma de pensar desenvolvimento industrial. Os exemplos de Espanha, Portugal, França e da própria Europa mostram que os países que mais avançam entenderam uma lição importante: construir um ecossistema talvez seja o investimento mais estratégico de todos.

No Brasil, acredito que estamos começando a trilhar esse caminho. O Mapa da Manufatura Aditiva evoluiu para a Aditiva Brasil justamente com esse propósito: dar visibilidade ao setor, conectar pessoas e criar oportunidades para que novas parcerias surjam.

Mas esse movimento só ganhará força se for construído coletivamente. Nenhuma associação, plataforma ou iniciativa consegue transformar um setor sozinha. Essa transformação acontece quando empresas, universidades, institutos de pesquisa, governo e usuários finais passam a enxergar que fortalecer o ecossistema beneficia todos.

Se quisermos que a manufatura aditiva ocupe um papel estratégico na indústria brasileira, talvez a pergunta mais importante não seja quantas impressoras temos instaladas hoje. Talvez a pergunta seja outra: O quanto estamos dispostos a construir juntos?

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Luan Saldanha Oliveira

Luan Saldanha Oliveira

Manufatura Aditiva

Engenheiro Mecânico pela Universidade Federal da Bahia, com graduação sanduíche no Instituto Superior Técnico (Portugal), e mestre em Engenharia de Sistemas e Produtos pelo Instituto Federal da Bahia. Possui formação complementar em Transformação Digital e MBA em Gestão e Inovação pela Fundação Getulio Vargas.

Atua no desenvolvimento, difusão e articulação de competências em Manufatura Aditiva aplicada à indústria, sendo criador do Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil e fundador da Aditiva Brasil, iniciativa voltada à conexão entre indústria, tecnologia e inovação.

Acompanhe a coluna de Luan Saldanha Oliveira e confira outros artigos sobre Manufatura Aditiva e Indústria 4.0.

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