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Inteligência industrial para conectar problemas e soluções

Uma proposta de plataforma para aproximar empresas, conhecimento e inovação, com menos burocracia e mais cooperação

Por: Éderson de Almeida Pedro      Exclusiva

Pense em uma indústria que precisa reduzir o retrabalho em uma linha de produção. A equipe conhece as perdas, convive com a pressão dos prazos e percebe que precisa melhorar o processo. Para avançar, porém, terá de identificar as causas, identificar competências externas, avaliar fornecedores e decidir como testar uma alternativa sem comprometer a operação. Enquanto isso, uma startup pode ter desenvolvido uma solução aplicável, um laboratório pode possuir os equipamentos necessários e uma empresa de engenharia pode conhecer o processo. O encontro entre essas capacidades e aquela necessidade ainda precisa acontecer.

Essa situação ilustrativa ajuda a compreender o desafio que orienta a proposta desta série. A inovação depende de condições para que os problemas sejam compreendidos, parceiros sejam encontrados e as iniciativas avancem. No primeiro artigo, apresentei a intenção de organizar dados públicos como base para uma futura plataforma de inteligência industrial. Agora, amplio essa visão para um ambiente que também reúna empresas, desafios, soluções e competências, acompanhando o que acontece após uma conexão.

Os entraves que motivam essa proposta têm evidências concretas. Em pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria ao instituto Nexus, com executivos de 1.002 empresas industriais entrevistados em fevereiro de 2026, 36% apontaram o excesso de burocracia como principal problema no acesso aos instrumentos públicos de apoio à inovação. Na mesma pesquisa, 46% consideraram que reduzir as exigências documentais melhoraria o acesso ao fomento. Os resultados referem-se a esse contexto específico, mas oferecem uma orientação para o desenho de novos serviços: o esforço exigido para participar deve ser compatível com o valor que a empresa poderá obter (Sala de Imprensa CNI).


As dificuldades também envolvem acesso a conhecimentos e capacidades. A OCDE discute como limitações de acesso a tecnologias, financiamento, dados e competências afetam a inovação das pequenas e médias empresas, e destaca as redes como meios de aproximá-las desses recursos. A cooperação pode ampliar o que uma organização consegue realizar com sua própria estrutura. Para isso, os participantes precisam conseguir acessar as redes e aproveitar suas oportunidades (OECD).

Na proposta que pretendo desenvolver, a inteligência industrial deverá apoiar esse movimento. Dados públicos ajudarão a compreender o contexto dos setores e dos territórios. Pesquisas privadas poderão acrescentar conhecimentos específicos, conforme as condições estabelecidas por seus responsáveis. Os cadastros de organizações e de competências permitirão identificar as capacidades disponíveis. Os problemas registrados pelas empresas orientarão a busca por parceiros, enquanto as soluções cadastradas apresentarão o que cada provedor pode efetivamente oferecer.

A região será um ponto de partida para conhecer as demandas e construir relações de confiança. A busca por soluções, entretanto, poderá alcançar startups, prestadores de serviços, universidades e empresas de outras localidades. Um desafio regional pode encontrar resposta em uma competência nacional, assim como uma solução desenvolvida localmente pode atender às necessidades de diferentes setores e territórios.

O cadastro de um problema será uma etapa importante desse processo. Uma descrição como “precisamos aumentar a produtividade” ainda oferece pouca informação para uma recomendação útil. Será necessário compreender em qual operação ocorre a dificuldade, quais efeitos ela produz, o que já foi tentado e quais restrições devem ser respeitadas. A plataforma poderá conduzir esse esclarecimento por meio de perguntas e elaborar uma descrição para a empresa revisar antes de compartilhá-la.

No exemplo inicial, essa conversa poderia revelar que o retrabalho decorre de falhas identificadas apenas ao final da produção. A necessidade passaria a ser descrita em termos do processo envolvido, das condições de operação e dos critérios de avaliação de um teste. Essa formulação ajudaria os possíveis parceiros a explicar como poderiam contribuir e permitiria à empresa comparar as propostas com mais clareza. O exemplo não pressupõe uma tecnologia específica: a resposta poderia envolver ajuste de processo, capacitação, instrumentação ou desenvolvimento tecnológico.

O mesmo cuidado deverá orientar o cadastro das soluções. Cada oferta deverá apresentar sua aplicação, os requisitos de implantação, as evidências disponíveis e o estágio de desenvolvimento. Uma solução comercial já utilizada em empresas exige uma avaliação diferente daquela necessária para um protótipo que ainda depende de validação. Também será importante distinguir a organização de suas ofertas, pois um mesmo provedor pode oferecer diversas competências e soluções.

Essa função de aproximação tem fundamentos na literatura sobre intermediação da inovação. Howells investiga os diferentes papéis dos intermediários nos processos de inovação e propõe uma tipologia de suas funções. Essa perspectiva ajuda a situar o projeto como um serviço capaz de organizar relações e de apoiar interações ao longo do processo. Há também referências operacionais, como a Enterprise Europe Network, que reúne ofertas e demandas de tecnologia, negócios e pesquisa, além de informações sobre parceiros e modalidades de cooperação (Research Explorer The University of Manchester).

A inteligência artificial poderá contribuir para transformar descrições heterogêneas em informações pesquisáveis, identificar lacunas nos cadastros e sugerir conexões. Uma indústria pode descrever sua necessidade em termos operacionais, enquanto um fornecedor apresenta a mesma aplicação em termos tecnológicos. A busca semântica poderá ajudar a reconhecer essa proximidade. Sua utilidade, contudo, terá de ser avaliada em conjunto com requisitos objetivos, como a infraestrutura necessária, a disponibilidade para um piloto e a compatibilidade com o prazo.

Cada sugestão deverá apresentar uma justificativa compreensível: quais características aproximam o problema da solução, quais informações sustentam essa avaliação e o que ainda precisa ser confirmado. A decisão de avançar caberá aos participantes. A IA também poderá identificar demandas recorrentes e sugerir oportunidades de desenvolvimento, mas essas indicações serão hipóteses a serem investigadas, sujeitas à validação pelas empresas.

A proposta de menos burocracia precisa se refletir na experiência de uso. O cadastro inicial deverá solicitar apenas as informações necessárias para compreender a demanda e iniciar a busca. Dados já fornecidos poderão ser reaproveitados, com atualização pelo responsável. Detalhes técnicos e documentos adicionais serão solicitados à medida que a relação avançar. A empresa deverá acompanhar o encaminhamento do seu desafio e entender qual é o próximo passo.

A plataforma poderá reduzir o esforço de busca, organização e comunicação que estiver sob seu controle. As exigências dos editais, as decisões de financiamento e os procedimentos de outras instituições dependerão de seus respectivos responsáveis. Quando houver oportunidades externas, o ambiente poderá ajudar a localizar orientações e organizar informações, mantendo clara a origem de cada requisito. Essa delimitação é importante para estabelecer expectativas realistas sobre o serviço.

A cooperação também dependerá de confiança. Uma empresa poderá divulgar uma descrição geral de sua necessidade e reservar desenhos, parâmetros ou informações operacionais para interlocutores autorizados. Uma instituição de pesquisa poderá compartilhar resultados agregados e manter outros materiais sob condições específicas. Cada participante precisará compreender o que está disponibilizando e para quem.

É nesse ponto que os data spaces se conectam ao projeto. A International Data Spaces Association descreve ambientes de compartilhamento confiáveis, sustentados por governança acordada, políticas de acesso e de uso, modelos semânticos e protocolos de interoperabilidade. Esses elementos poderão orientar a evolução da colaboração entre organizações. Sua implementação dependerá de participantes, acordos e integrações concretos; o cadastro de dados e de organizações será uma etapa inicial dessa construção (IDSA Knowledge Base).

A intermediação humana terá uma função própria. Representantes de entidades industriais, universidades e outras instituições poderão ajudar a qualificar os desafios, esclarecer as expectativas e acompanhar as aproximações, conforme um modelo de participação a ser definido. A tecnologia deverá facilitar esse trabalho e preservar o contexto das interações. Para a empresa, o valor estará em conseguir encaminhar uma necessidade a interlocutores capazes de compreendê-la.

O acompanhamento dos desfechos será parte essencial da proposta. Uma recomendação pode resultar em contato, reunião, diagnóstico, piloto ou implementação. Também pode ser recusada por custo, prazo, inadequação técnica ou mudança de prioridade. Registrar esses caminhos permitirá avaliar onde a plataforma ajuda e onde o processo continua enfrentando dificuldades. O interesse está na progressão das conexões e nos resultados que os participantes conseguirem verificar.

Essas interações poderão gerar dados relevantes para compreender as demandas do ecossistema. Será possível investigar quais problemas se repetem, quais competências são procuradas e quais obstáculos impedem os projetos de avançar. As análises deverão considerar que os registros representarão inicialmente os participantes da plataforma. Conclusões sobre toda a indústria regional exigirão examinar a cobertura e a seleção das empresas envolvidas.

Para o projeto científico, essa perspectiva formula a seguinte questão de pesquisa: como desenhar e avaliar uma plataforma que integre dados heterogêneos, demandas empresariais e recomendações explicáveis para apoiar a cooperação em inovação? A avaliação poderá considerar a qualidade das descrições, a relevância das sugestões, o tempo necessário para encontrar interlocutores e a progressão das oportunidades. Resultados econômicos exigirão acompanhamento e critérios de mensuração definidos em conjunto com os participantes.

O desenvolvimento deverá começar com uma comunidade delimitada e um conjunto inicial de desafios e competências. O primeiro ciclo precisará permitir registrar uma necessidade, revisá-la, apresentar possíveis parceiros e acompanhar o desfecho da aproximação. Essa experiência ajudará a definir os requisitos das próximas versões e a decidir quais dados e recursos adicionais serão necessários.

Publicarei um artigo por semana para organizar essa proposta até que o projeto esteja definido, conectando decisões de arquitetura, participação, governança e avaliação. O próximo passo será aprofundar como registrar os desafios das empresas e as capacidades dos parceiros de maneira simples e útil. A intenção é construir um ambiente em que uma necessidade encontre interlocutores, uma competência encontre aplicação e a cooperação possa avançar para projetos acompanháveis.

Referências

  • CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. 61% das indústrias no Brasil inovaram nos últimos 3 anos, revela CNI. 25 mar. 2026. Disponível em: Sala de Imprensa CNI. Acesso em: 2 nov. 2026.
  • OECD. The role of networks for SME innovation, resilience and sustainability. In: OECD. OECD SME and Entrepreneurship Outlook 2023. Paris: OECD Publishing, 2023. Disponível em: Capítulo sobre redes e inovação. Acesso em: 2 nov. 2026.
  • HOWELLS, Jeremy. Intermediation and the role of intermediaries in innovation. Research Policy, v. 35, n. 5, p. 715–728, 2006. DOI: 10.1016/j.respol.2006.03.005.
  • EUROPEAN COMMISSION. Enterprise Europe Network. Partnering opportunities. Disponível em: Base de oportunidades de cooperação. Acesso em: 2 nov. 2026.
  • INTERNATIONAL DATA SPACES ASSOCIATION. What is a Data Space? IDSA Rulebook. Disponível em: Definição e fundamentos dos data spaces. Acesso em: 2 nov. 2026.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Éderson de Almeida Pedro

Éderson de Almeida Pedro

Inovação e Inteligência Artificial

Sou doutor em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), empreendedor, CEO da GAUTICA, professor e desenvolvedor de software, com mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia. Minha atuação conecta inteligência artificial, inovação e transformação digital às necessidades das organizações.

Minha pesquisa de doutorado concentrou-se no desenvolvimento e na avaliação de uma arquitetura de inteligência artificial centrada no ser humano para apoiar controles administrativos em segurança e saúde ocupacional. Investiguei como explicabilidade, supervisão humana e rastreabilidade podem apoiar a avaliação de recomendações de IA e preservar a responsabilidade dos profissionais nas decisões.

Na educação, leciono inteligência artificial aplicada em cursos de MBA, aproximando seus fundamentos das aplicações na gestão e nos negócios. Também ministrei aulas no Mestrado Profissional em Engenharia de Produção e capacitei centenas de programadores. Como mentor de inovação na Junior Achievement, orientei jovens no desenvolvimento de projetos de empreendedorismo, conectando conhecimento, tecnologia e prática empresarial.

Atuo como palestrante e consultor em inteligência artificial e transformação digital, apoiando empresas na integração dessas tecnologias às suas estratégias e processos. À frente da Edertec Academy, desenvolvo iniciativas de formação para preparar profissionais para a aplicação crítica e responsável das tecnologias digitais.

Neste espaço, compartilho análises e aplicações da inteligência artificial na indústria, aproximando pesquisa científica, experiência empresarial e formação profissional.

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