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Da bancada do maker à indústria: o que vi na Maker Faire Curitiba 2026

Pranchas de surfe impressas em 3D, biomodelos, digitalização 3D e uma reflexão sobre como boas ideias podem evoluir da experimentação para aplicações reais

Por: Luan Saldanha Oliveira     

Neste final de semana tive a oportunidade de participar da Maker Faire Curitiba 2026, a convite da Slim 3D, em um evento que reuniu makers, estudantes, pesquisadores, empresas e entusiastas em torno de temas como fabricação digital, impressão 3D, robótica, eletrônica e inovação.

Além de conhecer diferentes projetos e aplicações, tive a oportunidade de realizar a palestra “Da ideia à indústria: quando a impressão 3D deixa de ser protótipo e vira solução”, trazendo uma discussão que considero cada vez mais importante para quem acompanha a evolução da manufatura aditiva.

A experiência na Maker Faire foi particularmente interessante porque o evento permite enxergar a tecnologia por um ângulo diferente daquele que normalmente encontramos em feiras e congressos industriais. Em um mesmo ambiente, encontramos projetos de makers, grupos de pesquisa, startups e empresas utilizando tecnologias semelhantes para resolver problemas completamente diferentes.

E talvez tenha sido justamente esse o principal aprendizado que trouxe de Curitiba: a distância entre a bancada de um maker e uma aplicação industrial pode ser muito menor do que imaginamos.

Da ideia à indústria: qual problema queremos resolver?

Na minha palestra, procurei trazer uma provocação bastante simples. Quando começamos a falar sobre impressão 3D, uma das primeiras perguntas normalmente é: “Qual impressora 3D eu devo comprar?”. Mas acredito que deveríamos começar por outra pergunta: “Qual problema eu quero resolver?”.

Durante muitos anos, a impressão 3D esteve fortemente associada à prototipagem rápida. Criar um modelo físico, avaliar um conceito, testar uma geometria e validar um produto continuam sendo aplicações extremamente importantes da tecnologia. Mas a manufatura aditiva evoluiu muito além disso.

Hoje encontramos aplicações em ferramentais, dispositivos de fabricação, peças de reposição, produção sob demanda, redução do número de componentes, customização e fabricação de geometrias que seriam difíceis ou até inviáveis pelos processos convencionais.


Nesse contexto, um dos pontos que procurei destacar durante a apresentação foi que a grande vantagem da impressão 3D não é necessariamente imprimir rápido, mas aprender rápido. A possibilidade de passar rapidamente por ciclos de ideia, teste, erro, nova versão e validação muda a dinâmica do desenvolvimento de produtos e soluções. E caminhando pela Maker Faire foi possível encontrar vários exemplos dessa lógica acontecendo na prática.

Grandes formatos e digitalização 3D

No estande da Slim 3D, um dos pontos que mais chamaram minha atenção foi a presença de equipamentos de impressão 3D de grandes dimensões, além de soluções de escaneamento 3D. A impressão em grandes formatos amplia bastante o universo de aplicações possíveis da manufatura aditiva. Quando aumentamos significativamente o volume de construção, começamos a sair dos componentes tradicionalmente associados à impressão 3D e entramos em aplicações como mobiliário, moldes, ferramentais, componentes de grandes dimensões e até produtos completos.

Já o escaneamento 3D representa outra parte importante desse ecossistema. Quando falamos em manufatura digital, não estamos falando apenas da etapa de impressão, mas de um fluxo que pode envolver digitalização, modelagem, engenharia, fabricação e inspeção.

A possibilidade de capturar digitalmente um objeto existente, trabalhar sua geometria e posteriormente fabricar uma nova versão cria oportunidades interessantes para engenharia reversa, desenvolvimento de produtos, manutenção e customização. Um dos produtos presentes no estande mostrava muito bem até onde esse fluxo pode chegar.

Uma prancha de surfe produzida com impressão 3D

Luan e Jonathan com impressão 3D de grandes dimensões

Entre as aplicações que mais me chamaram atenção estavam as pranchas da Favo Surfboards, desenvolvidas utilizando impressão 3D de grandes dimensões.Ver uma prancha produzida dessa forma é interessante porque quebra imediatamente uma percepção que ainda existe sobre a tecnologia. Para muitas pessoas, impressão 3D continua associada a pequenos objetos, protótipos ou peças de bancada. Quando encontramos um produto com as dimensões de uma prancha de surfe, essa percepção muda rapidamente.

Mas, mais importante do que simplesmente imprimir um objeto grande, está a possibilidade de repensar como aquele produto é projetado e fabricado. Estruturas internas diferenciadas, otimização da quantidade de material, liberdade geométrica e customização passam a fazer parte do desenvolvimento.

Além das pranchas, a Favo também apresentou os handplanes. Apesar de menores, são outros exemplos interessantes de produto no qual design, fabricação digital e possibilidade de personalização podem trabalhar em conjunto.

Esses exemplos reforçam algo que venho defendendo há algum tempo: não devemos procurar apenas objetos para imprimir. Precisamos procurar problemas e oportunidades nos quais a manufatura aditiva realmente faça sentido.

Da prancha de surfe aos modelos anatômicos

Poucos metros depois, encontrei a mesma tecnologia sendo utilizada em um contexto completamente diferente. Entre os grupos de pesquisa presentes na Maker Faire estava o 3D Life Lab, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O laboratório trabalha com a utilização da impressão 3D para produzir modelos anatômicos voltados ao ensino, além de biomodelos que podem auxiliar no planejamento cirúrgico. Na feira, foi possível observar representações anatômicas impressas em 3D e exemplos de utilização desses modelos em conjunto com instrumentação cirúrgica.

Esse tipo de aplicação é particularmente interessante porque transforma informações digitais obtidas a partir da anatomia em objetos físicos que podem ser manipulados, estudados e utilizados para compreender melhor determinado procedimento antes de sua execução.

Para mim, o contraste entre esses dois exemplos foi uma das imagens mais interessantes da feira. De um lado, uma prancha de surfe produzida com impressão 3D de grandes dimensões. Do outro, modelos anatômicos utilizados para educação e aplicações na área da saúde. São problemas completamente diferentes sendo abordados a partir de uma mesma base tecnológica.

Da pesquisa ao empreendedorismo: o trabalho da Regenera 3D

Outra boa surpresa durante a Maker Faire foi encontrar a Regenera 3D, startup que já acompanho por estar presente no Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil e que tive o prazer de conhecer melhor durante o evento. A Regenera nasceu no ambiente acadêmico e hoje trabalha com biomodelagem, impressão 3D e desenvolvimento de soluções personalizadas para a área da saúde. Entre suas aplicações estão biomodelos para planejamento pré-cirúrgico, moldes para próteses faciais e outras soluções que combinam imagens médicas, modelagem computacional e manufatura aditiva.

O fluxo de trabalho é um ótimo exemplo de como diferentes tecnologias digitais podem ser integradas. A partir de exames de imagem, como tomografias e ressonâncias, é possível transformar informações do paciente em modelos tridimensionais, trabalhar digitalmente a geometria e, posteriormente, utilizar a impressão 3D para produzir biomodelos, moldes e dispositivos personalizados.

Para mim, encontrar a Regenera na Maker Faire teve ainda outro significado. Quando criamos o Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil, um dos objetivos sempre foi justamente dar visibilidade e conectar empresas, startups, ICTs e profissionais que estão desenvolvendo aplicações reais da tecnologia no país. Poder encontrar presencialmente uma dessas startups, conversar com a equipe e conhecer um pouco mais do trabalho que estão desenvolvendo mostra que esse ecossistema está vivo e evoluindo.

A mesma tecnologia, diferentes níveis de exigência

3D Life Lab

Essa diversidade também esteve presente na minha palestra. Em um dos slides, mostrei aplicações de impressão 3D em quatro ambientes diferentes: na casa de um maker, em uma universidade, em uma startup e na indústria.

A tecnologia pode até ser semelhante, mas o contexto muda completamente. Quando chegamos à indústria, passam a fazer parte da equação requisitos de engenharia, seleção e controle de materiais, repetibilidade, qualidade, rastreabilidade e, naturalmente, viabilidade econômica.

Isso significa que uma solução desenvolvida na bancada de um maker não se transforma automaticamente em uma aplicação industrial. Existe um caminho de engenharia, validação e amadurecimento que precisa ser percorrido.

Por outro lado, seria igualmente equivocado imaginar que esses dois mundos estão distantes. Muitas soluções relevantes começam justamente como experimentos, protótipos ou ideias aparentemente simples. O desafio é identificar quais delas resolvem problemas reais e criar as condições para que possam evoluir.

Makers, universidades, startups e indústria

Essa talvez seja uma das maiores contribuições de eventos como a Maker Faire: colocar diferentes atores do ecossistema de inovação no mesmo ambiente. Um estudante pode conhecer uma aplicação industrial que nunca havia imaginado. Uma empresa pode encontrar uma solução criada por um maker. Um pesquisador pode conversar diretamente com um fornecedor de tecnologia. Uma startup pode
enxergar uma oportunidade de transformar um projeto experimental em produto.

Para quem acompanha a evolução da manufatura aditiva, essa interação é particularmente importante. A tecnologia já está suficientemente acessível para permitir experimentação em escolas, universidades, pequenos negócios e até dentro de casa. Ao mesmo tempo, equipamentos, materiais, softwares e processos industriais estão evoluindo para aplicações cada vez mais exigentes. O que precisamos fortalecer são justamente as pontes entre esses ambientes.

Da bancada do maker à indústria

No final da minha palestra, deixei uma provocação que, depois de percorrer a Maker Faire Curitiba, fez ainda mais sentido para mim: “O próximo grande case de impressão 3D na indústria pode estar hoje na bancada de um maker.”

A inovação dificilmente começa com uma solução industrial completamente pronta. Muitas vezes ela começa quando alguém observa um produto ou processo e se pergunta: “Por que isso ainda é fabricado assim?”. Depois vem uma ideia, um primeiro protótipo, um erro, uma nova versão e mais um teste.

Em algum momento, aquela experiência pode deixar de ser apenas um projeto interessante e começar a resolver um problema real. É justamente nessa transição que a manufatura aditiva mostra uma de suas maiores forças.

Participar da Maker Faire Curitiba 2026 reforçou para mim que precisamos estimular cada vez mais essa aproximação entre makers, universidades, startups, fornecedores de tecnologia e indústria. Quanto maior essa interação, maiores são as chances de transformar boas ideias em aplicações concretas.

No final, a discussão não deveria ser apenas sobre qual impressora 3D comprar ou qual tecnologia utilizar. A pergunta mais importante continua sendo qual problema queremos resolver e qual valor conseguimos gerar com a tecnologia. E talvez algumas das próximas grandes aplicações da manufatura aditiva brasileira já estejam sendo desenvolvidas agora, em alguma universidade, startup, laboratório ou na bancada de um maker.

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Luan Saldanha Oliveira

Luan Saldanha Oliveira

Manufatura Aditiva

Engenheiro Mecânico pela Universidade Federal da Bahia, com graduação sanduíche no Instituto Superior Técnico (Portugal), e mestre em Engenharia de Sistemas e Produtos pelo Instituto Federal da Bahia. Possui formação complementar em Transformação Digital e MBA em Gestão e Inovação pela Fundação Getulio Vargas.

Atua no desenvolvimento, difusão e articulação de competências em Manufatura Aditiva aplicada à indústria, sendo criador do Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil e fundador da Aditiva Brasil, iniciativa voltada à conexão entre indústria, tecnologia e inovação.

Acompanhe a coluna de Luan Saldanha Oliveira e confira outros artigos sobre Manufatura Aditiva e Indústria 4.0.

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