O uso de Directed Energy Deposition (DED) em titânio pela Airbus mostra que a manufatura aditiva metálica já resolve problemas reais de custo, prazo e sustentabilidade no setor aeroespacial, não como promessa futura, mas como solução aplicada em aeronaves comerciais.
A Airbus já utiliza DED em titânio em peças estruturais do A350. E o ponto central aqui não é “inovação pela inovação”, mas sim redução de custo total, encurtamento de lead time e diminuição do desperdício de material. É nesse contexto que o DED começa a se consolidar como tecnologia industrial (e não apenas experimental!).
DED saiu do laboratório e entrou na aeronave
Publiquei um post no LinkedIn comentando que a Airbus está utilizando manufatura aditiva metálica por DED na fabricação de componentes aeronáuticos em titânio. O volume de interações neste post (curtidas, comentários, compartilhamentos e mensagens por DM) deixou claro que o tema despertou interesse real. Por isso resolvi detalhar melhor esse movimento, agora com base em informações da própria Airbus e de veículos técnicos especializados do setor aeroespacial.
E já adianto: não estamos falando de protótipo, nem de laboratório.

Por que esse movimento da Airbus importa agora
A indústria aeroespacial vive hoje uma equação cada vez mais difícil de equilibrar. De um lado, custos crescentes de matéria-prima (especialmente titânio). Do outro, cadeias de suprimentos longas, frágeis e altamente dependentes de poucos fornecedores globais. Some-se a isso a pressão por sustentabilidade e prazos de entrega cada vez mais agressivos.
Nesse cenário, processos convencionais como forjamento pesado seguido de usinagem intensiva começam a mostrar seus limites. Não por falta de qualidade (a indústria domina esses processos há décadas), mas por ineficiência estrutural: muito material descartado, muito tempo de máquina e alto custo indireto.
E é exatamente aqui que a manufatura aditiva metálica deixa de ser “promessa” e passa a ser ferramenta estratégica.
O que a Airbus está fazendo, na prática
A Airbus passou a integrar componentes de titânio produzidos por Wire-DED em aeronaves da família A350, mais especificamente em conjuntos estruturais da porta de carga. Esse ponto é fundamental: não se trata de um demonstrador tecnológico isolado. As peças passaram por processos rigorosos de qualificação e certificação e foram integradas a uma cadeia produtiva híbrida, combinando deposição por DED, usinagem de acabamento e inspeção.
Ou seja, o DED não substitui tudo. Ele entra exatamente onde gera mais valor, reduzindo desperdício e esforço produtivo sem comprometer requisitos críticos de qualidade e segurança.
Entendendo o DED além do hype
O DED por fio metálico funciona depositando material fundido camada a camada diretamente onde ele é necessário, criando uma peça próxima do formato quase final (“near-net shape”). Isso muda de forma significativa a lógica tradicional de fabricação de componentes em titânio. Na prática, essa abordagem reduz drasticamente o desperdício de material, diminui as horas de usinagem pesada e amplia a liberdade para geometrias estruturais mais eficientes.
Para peças grandes e estruturais, esse ganho é ainda mais relevante. Por isso, em muitas aplicações desse tipo, o DED faz mais sentido do que tecnologias baseadas em leito de pó (PBF), especialmente quando se olha para escala, custo e robustez de processo.
O papel da Norsk Titanium nesse amadurecimento
Nada disso surge do nada. Boa parte da maturidade que hoje permite à Airbus avançar com DED vem de aprendizados acumulados por empresas como a Norsk Titanium. Ela fornece há alguns anos componentes estruturais em titânio produzidos por DED para o Boeing 787, com foco em repetibilidade, estabilidade de processo, qualificação aeronáutica e produção em série.
O grande aprendizado desse histórico é simples e poderoso: o DED só vira produção quando processo, material e certificação evoluem juntos. É exatamente esse caminho que a Airbus está trilhando agora.
Onde está o valor real para a indústria
Esse movimento da Airbus deixa uma mensagem muito clara para outros setores industriais. Manufatura aditiva metálica não é sobre “substituir tudo”, mas sobre resolver gargalos específicos com mais eficiência.
No caso do DED em titânio, o valor aparece na redução do custo total da peça, no encurtamento da cadeia de suprimentos, na menor dependência de grandes forjarias e em ganhos ambientais reais, com menos material e menos energia consumida ao longo do processo.
O que o DED não é (e isso também importa!)
Vale reforçar: o DED não é uma solução universal. Ele exige investimento elevado em equipamentos, forte know-how metalúrgico e de soldagem, integração estreita com engenharia e qualidade, além de processos robustos de inspeção e qualificação. Ainda assim, quando bem aplicado, o retorno industrial tende a justificar o esforço, especialmente em setores intensivos em material, tempo e risco operacional.
Principais aprendizados
- O DED saiu definitivamente do laboratório;
- A Airbus está usando MA metálica para resolver problemas reais;
- Titânio, custo e lead time são os grandes drivers;
- O aeroespacial continua puxando a maturidade da tecnologia.
Conclusão
O que mais me chama atenção nesse movimento da Airbus não é a tecnologia em si, mas a clareza estratégica. O DED não entrou na aeronave porque é “inovador”; entrou porque faz sentido técnico, econômico e operacional.
E isso levanta uma provocação importante para outros setores como óleo e gás, energia, defesa e indústria pesada: quantas peças hoje são fabricadas de forma ineficiente apenas por inércia do processo?
Quero ouvir você
Você acredita que o DED em metal vai ganhar escala também fora do setor aeroespacial nos próximos anos? Em quais aplicações industriais você enxerga mais potencial?
A discussão é tão importante quanto a tecnologia.
Grande abraço,
Luan Saldanha.
Obs.: Quem quiser se aprofundar um pouco mais, segue link de 3 artigos publicados nas últimas semanas: Airbus e Metal AM.
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