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Por dentro da indústria: as histórias que mostram como a manufatura aditiva está evoluindo no Brasil

Um projeto para conectar pessoas, compartilhar conhecimento e mostrar como a MA está sendo aplicada na prática

Por: Luan Saldanha Oliveira     

Nos últimos quatro anos, tenho dedicado boa parte do meu trabalho à divulgação da manufatura aditiva no Brasil. Seja através dos artigos publicados semanalmente, do Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil, da plataforma Aditiva Brasil, de palestras ou da participação em eventos, sempre procurei aproximar profissionais, empresas e instituições que fazem parte desse ecossistema.

Ao longo dessa jornada, percebi algo que me chamou bastante atenção. Apesar do crescimento da tecnologia e do aumento do número de aplicações industriais, ainda existe uma dificuldade muito grande para encontrar conteúdos que mostrem, de forma prática, como a manufatura aditiva está sendo utilizada dentro das empresas brasileiras. Grande parte do conhecimento permanece restrita às equipes técnicas, aos projetos internos ou às conversas realizadas durante eventos do setor.

Foi justamente dessa percepção que nasceu o projeto "Manufatura Aditiva na Indústria: conversas com quem faz". A proposta é simples: conversar com profissionais que estão utilizando a tecnologia diariamente, entendendo como surgiram os projetos, quais desafios enfrentaram, quais resultados obtiveram e quais aprendizados podem compartilhar com todo o ecossistema.

Mais do que apresentar equipamentos ou processos, o objetivo é mostrar experiências reais de quem está fazendo a manufatura aditiva acontecer na indústria brasileira.

Quatro episódios, diferentes mercados e um mesmo objetivo

Em pouco tempo, o projeto já reuniu quatro conversas com empresas e instituições que atuam em segmentos bastante distintos, demonstrando a versatilidade da amanufatura aditiva e o nível de maturidade que a tecnologia vem alcançando no Brasil.


O primeiro episódio contou com a participação de Ivan Cavilha, fundador da Yoface, empresa que reinventou a fabricação de armações de óculos utilizando impressão 3D industrial. Durante a conversa, discutimos como a personalização em escala, a produção sob demanda e a digitalização do processo produtivo permitiram criar um novo modelo de negócio para um mercado tradicional.

Na sequência, conversei com o Danilo Luna, um dos responsáveis pelo Bureau de Manufatura Aditiva do Senai Cimatec sobre um tema extremamente importante para quem deseja iniciar projetos utilizando a tecnologia: o papel dos bureaus. A conversa mostrou como essas estruturas permitem que empresas tenham acesso à manufatura aditiva industrial sem a necessidade de investir inicialmente em equipamentos próprios, além de apresentarem suporte em engenharia, desenvolvimento de aplicações e qualificação de processos.

O terceiro episódio trouxe uma discussão que considero extremamente relevante e que ainda recebe pouca atenção: a seleção de materiais. Ao lado de Micael Mota, da SKA, foi abordado o uso industrial das resinas e como propriedades mecânicas, resistência química, estabilidade dimensional e requisitos de aplicação são muito mais importantes do que aspectos puramente estéticos quando falamos em produção industrial.

Por fim, a conversa com o Renan Massa, da Avenir 3D, abordou uma dúvida recorrente de praticamente todas as empresas que começam a trabalhar com impressão 3D: como transformar um protótipo em uma peça funcional? Discutimos critérios para seleção de aplicações, limitações dos processos e como identificar oportunidades onde a manufatura aditiva realmente gera valor para a indústria.

Embora cada episódio tenha abordado um tema diferente, todos convergem para um mesmo ponto: a manufatura aditiva deixou de ser apenas uma ferramenta de prototipagem e vem ocupando um espaço cada vez mais estratégico dentro das empresas.

O que essas conversas revelam sobre a manufatura aditiva no Brasil

Um dos aspectos mais interessantes ao revisitar esses quatro episódios é perceber que, independentemente do setor de atuação, alguns padrões aparecem de forma bastante consistente. O primeiro deles é que a adoção da tecnologia acontece quando existe um problema real a ser resolvido.

Em nenhum dos casos apresentados a manufatura aditiva foi utilizada simplesmente porque era uma tecnologia nova. Pelo contrário, ela foi escolhida porque permitiu reduzir prazos, viabilizar geometrias complexas, eliminar estoques, produzir peças personalizadas, otimizar custos ou acelerar o desenvolvimento de produtos.

Outro ponto recorrente foi a importância do conhecimento técnico. À medida que a tecnologia amadurece, as discussões deixam de girar apenas em torno das impressoras e passam a envolver engenharia de aplicação, seleção de materiais, pós-processamento, inspeção, certificação, qualificação de processos e integração com a manufatura convencional.

Esse talvez seja um dos maiores sinais da evolução da manufatura aditiva no Brasil. Estamos abandonando a fase em que a impressão 3D era vista apenas como uma novidade tecnológica e entrando em uma etapa onde ela passa a ser considerada uma ferramenta estratégica para resolver problemas industriais.

Disseminar conhecimento continua sendo um dos maiores desafios

Se existe um aprendizado que essas conversas reforçaram é que a tecnologia evolui muito mais rapidamente quando o conhecimento é compartilhado. Ainda encontro empresas que associam a manufatura aditiva exclusivamente à produção de protótipos ou acreditam que sua aplicação está restrita a peças plásticas de pequeno porte. Ao mesmo tempo, vejo organizações desenvolvendo componentes funcionais, reduzindo tempos de manutenção, produzindo ferramentas, dispositivos e até componentes finais com excelentes resultados.

Essa diferença, muitas vezes, não está relacionada à tecnologia disponível, mas ao acesso à informação. Quanto mais empresas compartilham seus casos de sucesso, maiores são as chances de outras organizações identificarem oportunidades semelhantes dentro de suas próprias operações.

Esse também tem sido um dos principais objetivos das demais iniciativas que venho desenvolvendo, como o Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil, a plataforma Aditiva Brasil e os artigos publicados semanalmente: fortalecer as conexões entre os diversos atores do ecossistema e ampliar a disseminação do conhecimento.

Um projeto que continua crescendo

Confesso que iniciei o projeto imaginando que seria apenas uma sequência de entrevistas técnicas. Hoje percebo que ele está se tornando muito mais do que isso. Cada episódio gera novas conexões, aproxima empresas, desperta o interesse de profissionais que ainda não conheciam determinadas aplicações e, principalmente, registra histórias que ajudam a contar como a manufatura aditiva está evoluindo no Brasil. Esse retorno tem sido extremamente positivo e reforça que existe espaço para conteúdos técnicos, acessíveis e construídos a partir da experiência de quem utiliza a tecnologia diariamente.

Ainda há muitos temas para explorar, novos setores para conhecer e inúmeros profissionais que têm muito a contribuir com esse movimento. Acredito que fortalecer o ecossistema passa necessariamente pela disseminação do conhecimento. Quanto mais compartilharmos experiências, aplicações e aprendizados, mais rapidamente veremos a manufatura aditiva ocupar o espaço estratégico que merece dentro da indústria brasileira.

Esse é exatamente o propósito do projeto "Manufatura Aditiva na Indústria: conversas com quem faz". E esta é apenas a primeira temporada.

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Luan Saldanha Oliveira

Manufatura Aditiva

Engenheiro Mecânico pela Universidade Federal da Bahia, com graduação sanduíche no Instituto Superior Técnico (Portugal), e mestre em Engenharia de Sistemas e Produtos pelo Instituto Federal da Bahia. Possui formação complementar em Transformação Digital e MBA em Gestão e Inovação pela Fundação Getulio Vargas.

Atua no desenvolvimento, difusão e articulação de competências em Manufatura Aditiva aplicada à indústria, sendo criador do Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil e fundador da Aditiva Brasil, iniciativa voltada à conexão entre indústria, tecnologia e inovação.

Acompanhe a coluna de Luan Saldanha Oliveira e confira outros artigos sobre Manufatura Aditiva e Indústria 4.0.

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