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A eficiência que não gera valor na indústria 4.0

Colaboradores, gerentes e diretores são frequentemente avaliados pelo cumprimento de metas

Por: Pietro Perrone      Exclusiva

Independentemente do setor de atuação de cada empresa, existem algumas premissas que sempre aparecem nos discursos corporativos, nos planos estratégicos, nas reuniões e nos programas de metas gerenciais. À primeira vista, tratam-se de objetivos legítimos e necessários para a sobrevivência e a competitividade dessas empresas. Porém, os problemas surgem quando esses conceitos deixam de ser instrumentos de gestão e passam a ser tratados como fins em si mesmos.

Ao longo dos anos, vários projetos organizacionais surgiram em prol da eficiência operacional, mas dois deles sempre me chamaram a atenção: redução de custos e melhoria contínua, pois deixaram de representar boas práticas administrativas para se transformarem em verdadeiros mandamentos corporativos. Colaboradores, gerentes e diretores são frequentemente avaliados pelo cumprimento de metas relacionadas a esses indicadores, muitas vezes com impacto direto em seus bônus e remunerações variáveis.

Nesse contexto, cria-se uma dinâmica em que a busca incessante por economias e ganhos de eficiência passa a ocupar posição central nas decisões empresariais. O que deveria ser um exercício equilibrado de gestão acaba se tornando uma corrida permanente por números cada vez menores de despesas e índices cada vez maiores de produtividade.

Paralelamente, prospera um amplo mercado de consultorias e especialistas que oferecem soluções voltadas exatamente para tais objetivos de mudança, cujos honorários normalmente são calculados como percentual dos valores "supostamente" economizados, criando, assim, um incentivo natural para que a redução de custos ou a melhoria contínua sejam apresentadas como solução para praticamente qualquer problema organizacional ou operacional.

Entretanto, cabe aqui fazer algumas reflexões importantes:

  • Por que devo mexer em um sistema operacional que entrega efetivamente os resultados nos prazos planejados?
  • Até que ponto os ganhos anunciados pelas mudanças representam, efetivamente, melhorias sustentáveis no plano de negócio?
  • O quanto a competitividade do produto no mercado é afetada e como ficam as métricas de sua qualidade assegurada?

Muitas iniciativas classificadas como redução de custos normalmente resultam na transferência de despesas para outras áreas, no aumento da sobrecarga dos profissionais ou na deterioração gradual da qualidade dos produtos e serviços. Em alguns casos, a economia obtida no curto prazo acaba gerando custos muito maiores no futuro.


Algo semelhante também ocorre com a chamada melhoria contínua. Em sua essência, o conceito busca aperfeiçoar processos, eliminar desperdícios, desenvolver competências e aumentar a geração de valor. Porém, quando reduzido a uma simples ferramenta para cortar gastos, perde grande parte de seu significado original.

Melhorar não é apenas gastar menos; é produzir resultados melhores, com maior qualidade, segurança, inovação e satisfação para clientes e colaboradores.

Outro aspecto preocupante é a crescente substituição da experiência prática por modismos gerenciais. Novas metodologias, siglas e modelos surgem continuamente, prometendo soluções definitivas para desafios complexos. Muitas organizações adotam essas tendências sem uma análise crítica de sua aplicabilidade, acreditando que a simples implementação de uma nova ferramenta produzirá os resultados desejados.

A história mostra que organizações bem-sucedidas não são aquelas que promovem alterações frequentes em seu sistema operacional de forma sistemática, mas aquelas que conseguem equilibrar eficiência operacional com investimento em pessoas, tecnologia, inovação e conhecimento.

As empresas que prosperam de maneira consistente compreendem que alguns gastos são, na verdade, investimentos indispensáveis para a construção de vantagens competitivas duradouras.

Não sou eu que estou inventando todos esses conceitos em relação ao tema, pois eles são amplamente discutidos na Teoria das Restrições e na gestão de supply chain management, cujo foco se concentra na otimização do desempenho global da cadeia produtiva, e não apenas em processos isolados.

A indústria 4.0 não torna a redução de custos ou a melhoria contínua obsoletas, mas modifica suas naturezas. O verdadeiro desafio não é implementar tecnologia para melhorar continuamente, e sim desenvolver a capacidade organizacional de aprender, adaptar-se e extrair valor das tecnologias digitais já implementadas.

A criação de valor na indústria 4.0 está sempre condicionada a fatores organizacionais, humanos e estratégicos que transcendem a adoção tecnológica.

Em outras palavras: aprenda a usar a tecnologia existente e, só depois de atingir 100% de sua eficiência, pense em mudar algo. A estabilidade operacional é um ativo estratégico e não deve ser sacrificada em nome de mudanças constantes.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Pietro Perrone

Pietro Perrone

Indústria Inteligente


  • Mais de 45 anos de comprovada experiência em indústrias multinacionais, ocupando posições de Presidente, Vice-Presidente, Diretor Industrial, Gerente de Manufatura, Engenheiro de Manufatura, Gerente de Engenharia de Manufatura, Gerente de Produção.

  • Especialista em ambientes industriais de grande, médio e pequeno porte, engenharia e desenvolvimento de produto, manufatura, ferramentaria e manutenção/facilidades, programas de qualidade e certificações, planejamento e controle de produção, controle de estoques e compras.

  • Gerenciamento de projetos de específicos para desenvolvimento de novos negócios, restruturações de negócios e empresas, lançamento de novos produtos e evidente liderança multidisciplinar dos times envolvidos.

  • Sólidos conhecimentos nas áreas de Vendas e Marketing, Administrativo, Financeiro, Logística e Distribuição, Custos e Preços, Margens Operacionais e Contribuição.

  • Conhecimento das novas tecnologias Digitais para Gestão de Empresas.

Acompanhe a coluna de Pietro Perrone e confira outros artigos sobre Manufatura Aditiva e Indústria 4.0.

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