Em quase todas as organizações ao redor do mundo, existem aqueles colaboradores diferenciados em função de suas habilidades em resolver problemas, chamados de “apagadores de incêndio”. Esses bombeiros, além de possuírem eficientes habilidades operacionais, também conhecem muito bem o sistema operacional que operam, o que torna essa tarefa relativamente fácil, mesmo se tratando de eventos reincidentes e de alta frequência.
Na minha concepção, esses eventos não passam de anomalias do sistema operacional e fazem com que esses colaboradores, os bombeiros, passem a maior parte do seu tempo correndo atrás de resolver problemas advindos das mais diversas fontes de erro.
Sempre dotados das melhores intenções e com muita resiliência profissional, salvam diariamente seu barco das tempestades. Porém, com o passar do tempo, acabam por criar condições permissivas a um relaxamento disciplinar estrutural, fugindo, assim, do que foi planejado e exigido no sistema operacional.
A quantidade excessiva de “não conformidades recorrentes” em uma cadeia produtiva cria vícios nas organizações, pois começam a fazer parte do cotidiano e das rotinas diárias de trabalho, bem como levam os profissionais que a operam a uma acomodação sistêmica e ao afrouxamento dos controles operacionais.
Quando isso acontece, as exceções tornam-se regras, e as falhas se transformam em algo normal, resultando no aumento da dependência dos apagadores de incêndio e na proliferação dos planos de contingência, transformando, assim, o sistema operacional em um perfeito inferno astral.
Um amontoado de bombeiros, cada um com sua própria mangueira, jogando água para todos os lados, e o fogo mudando sempre de lugar, nunca permite ser apagado.
Surpreendentemente, muitas empresas ainda operam nesse cenário, sem demonstrar preocupação em evoluir e se perdendo nesse emaranhado operacional, deixando de lado a estratégia de se tornar cada vez mais inteligente.
Os exageros em planos de contingência ou nos famosos planos B fazem com que a organização comece a utilizar esses recursos como solução principal, em vez de utilizá-los como apoio estratégico, distorcendo completamente o papel do plano operacional previamente planejado.
Não podemos também deixar de mencionar a existência de uma tendência natural do ser humano em se acomodar diante de fatos corriqueiros, o que favorece a criação de vícios sistemáticos na forma de lidar com problemas, reforçando, na grande maioria das vezes, soluções paliativas em vez de estruturais.
Surge então uma questão relevante dentro deste contexto: por que elaboramos planos de contingência ou alternativas (plano B) diante de falhas previsíveis?
Outra questão: se já conhecemos a possibilidade de determinadas falhas ocorrerem, por que o sistema operacional não se autocontrola e se autocorrige?
Uma indústria inteligente deve elaborar seus planos de contingência focados em situações de maior amplitude estratégica e deixar os problemas operacionais de menor monta serem resolvidos pelo autocontrole do sistema operacional.
Por exemplo, depender de um único fornecedor para uma matéria-prima crítica é um risco que justifica um plano B (alternativo), pois uma falha de fornecimento irá impactar o resultado da operação, com certeza.
Já em uma operação previsível e corriqueira, como o fornecimento de água feito por uma bomba, faz mais sentido investir em redundância (bombas adicionais instaladas em paralelo) do que depender de uma substituição emergencial. A falha previsível é tecnicamente evitável; logo, não faz o menor sentido tratá-la como contingência ou plano B, devendo, sim, ser eliminada em sua origem.
Esses exemplos simples ilustram algumas diferenças fundamentais:
- contingência não substitui a prevenção;
- evitar o erro é mais importante que planejá-lo;
- o erro não segue regras, mas possui causas e tem lógica.
Compete às organizações de uma indústria inteligente compreender esses elementos adversos, atuar na causa raiz e promover a correção definitiva do problema.
A indústria realmente inteligente apaga um incêndio de uma única vez, eliminando sua fonte de ignição.
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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