Uma análise recente de patentes no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) revela tendências importantes sobre inovação, indústria e o papel do Brasil no avanço da manufatura aditiva.
- Depósitos de patentes de impressão 3D no Brasil cresceram nos últimos anos;
- A maioria das patentes é de empresas estrangeiras, enquanto universidades brasileiras concentram os depósitos nacionais;
- O país vive um momento de transição: de consumidor de tecnologia para potencial produtor de inovação.
O que as patentes podem nos ensinar sobre uma tecnologia
Nem toda inovação vira patente. E nem toda patente vira inovação real. Ainda assim, o registro de patentes continua sendo um dos melhores termômetros para medir o avanço tecnológico de um país ou setor. Isso acontece porque o depósito de uma patente geralmente sinaliza três coisas importantes:
- Investimento em pesquisa e desenvolvimento;
- Expectativa de retorno econômico;
- Disputa por posição tecnológica futura.
Por isso, analisar patentes não é apenas olhar para documentos jurídicos, é observar o mapa da inovação em formação. Um estudo recente (“Manufatura Aditiva e Sustentabilidade: análise das Patentes de Impressão 3D no INPI” - Ana Julia Dal Forno; Rafael Tezza. DOI: 10.19180/1809-2667.v27n32025.23526) analisou justamente isso: os depósitos de patentes relacionados à impressão 3D e manufatura aditiva no Brasil, utilizando dados do INPI. E os resultados revelam alguns sinais importantes sobre o estágio atual da tecnologia no país.
O crescimento recente da manufatura aditiva no Brasil
A pesquisa analisou 115 pedidos de patente relacionados à impressão 3D, identificados a partir dos termos “manufatura aditiva” ou “impressão 3D” nos títulos das patentes depositadas no INPI. O dado mais interessante é a evolução temporal. Quase 44% desses depósitos ocorreram nos últimos cinco anos, com um pico registrado em 2021, com 17 pedidos. Esse movimento acompanha a tendência global.
Nos últimos anos, a manufatura aditiva deixou de ser vista apenas como ferramenta de prototipagem para se consolidar como tecnologia industrial estratégica, aplicada em setores como:
- Saúde;
- Aeroespacial;
- Petróleo e gás;
- Automotivo;
- Eletrônicos.
O aumento de patentes no Brasil reflete justamente esse momento de expansão e amadurecimento do mercado. Mas ao olhar mais de perto os dados, surgem algumas questões importantes.
Quem realmente está patenteando no Brasil?
Um dos resultados mais reveladores do estudo é a origem dos depósitos. Segundo a análise:
- 63% das patentes foram depositadas por não residentes, ou seja, empresas estrangeiras;
- apenas 37% foram depositadas por residentes no Brasil.
Entre os principais depositantes aparecem grandes empresas globais como:
- Hewlett-Packard;
- Xerox;
- 3M;
- Goodrich;
- Aprecia Pharmaceutical.
Esse padrão não é exclusivo da manufatura aditiva. Ele aparece em diversos setores tecnológicos no Brasil: o país cresce primeiro como mercado consumidor da tecnologia e só depois como produtor de propriedade intelectual. Isso não significa necessariamente atraso. Muitas vezes faz parte do processo natural de adoção tecnológica. Mas também levanta uma questão estratégica: Quem vai capturar o valor gerado por esse mercado?
A inovação brasileira nasce na universidade
Outro dado interessante aparece quando olhamos apenas para as patentes depositadas por residentes no país. A maioria delas vem de universidades e instituições de pesquisa. Isso reforça algo já conhecido no sistema de inovação brasileiro:
A academia produz conhecimento e propriedade intelectual, mas a transformação desse conhecimento em produtos e negócios ainda enfrenta dificuldades.
Ou seja, existe uma lacuna entre:
- Geração de tecnologia;
- Transferência para a indústria;
- Comercialização de inovação.
Essa desconexão limita o potencial de transformação econômica da pesquisa. Ao mesmo tempo, abre espaço para uma oportunidade estratégica: aproximar universidades, startups e indústria.
Onde está acontecendo a inovação tecnológica
A análise das patentes também mostra em quais áreas tecnológicas a inovação está concentrada. Cerca de 62% dos pedidos estão classificados na categoria B da Classificação Internacional de Patentes, relacionada a operações de processamento e transporte.
Na prática, isso significa que grande parte das patentes envolve:
- Processos de fabricação;
- Equipamentos de impressão;
- Manipulação de materiais;
- Otimização de produção.
Ou seja, a inovação ainda está muito focada no “como produzir”, e não necessariamente no “o que produzir”. Essa característica é bastante comum em tecnologias emergentes, onde os avanços iniciais acontecem principalmente na melhoria de processos.
A saúde aparece como uma das aplicações mais promissoras. A segunda categoria mais relevante identificada no estudo foi a de “necessidades humanas”, que inclui aplicações como:
- Próteses;
- Implantes médicos;
- Ferramentas odontológicas;
- Dispositivos médicos personalizados;
- Até aplicações em calçados e alimentos.
Esse resultado faz bastante sentido. A manufatura aditiva tem uma grande vantagem em aplicações médicas: a capacidade de produzir peças personalizadas. Próteses e implantes, por exemplo, podem ser adaptados exatamente à anatomia de cada paciente. Isso transforma a impressão 3D em uma ferramenta poderosa para medicina personalizada.
O Brasil está diante de uma decisão estratégica
Os dados do estudo revelam um cenário interessante. Por um lado, o mercado brasileiro de impressão 3D está crescendo e atraindo investimentos globais. Por outro, grande parte da propriedade intelectual ainda pertence a empresas estrangeiras.
Ao mesmo tempo, universidades brasileiras produzem conhecimento relevante, mas esse conhecimento nem sempre se transforma em negócios ou produtos industriais. Isso coloca o país diante de uma escolha estratégica. O Brasil pode continuar sendo principalmente, um mercado consumidor de tecnologias estrangeiras, ou pode se posicionar também como um produtor e exportador de soluções em manufatura aditiva.
Para isso, será necessário fortalecer alguns pilares fundamentais:
- Transferência de tecnologia;
- Criação de startups deep tech;
- Parceria universidade–empresa;
- Políticas de incentivo à inovação industrial.
Por fim...
A manufatura aditiva já deixou de ser uma promessa distante. Ela está sendo aplicada hoje em setores estratégicos da indústria global. No Brasil, os sinais são claros: o ecossistema está crescendo, novos atores estão surgindo e o interesse tecnológico aumenta ano após ano. Mas o verdadeiro desafio não é apenas adotar a tecnologia. É participar da criação dela.
As patentes analisadas neste estudo mostram onde estamos. A pergunta mais interessante agora é outra: Onde queremos estar na próxima década da manufatura aditiva?
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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