O planejamento do projeto de implementação de uma fábrica inteligente, na 4ª geração, não passa de um quebra-cabeça, em que inúmeras premissas devem ser definidas e caracterizadas de forma coerente dentro de um contexto global do estudo. Em nenhum momento o famoso achismo deve prevalecer, e todas as decisões e ações devem estar fundamentadas em fatos e dados corretos, com alternativas e contingências lógicas e reais.
Uma vez definidas as principais metodologias e colocadas em prática as ações acima, vem a parte árdua do planejamento, que tem a ver com a definição da tecnologia a ser aplicada. Todas as tecnologias e serviços disponíveis no mercado devem ser avaliados em detalhes, com o objetivo principal de encontrar qual deles melhor se encaixa no projeto em função do momento e das necessidades atuais.
É aqui que começa a aventura do planejador, em que qualquer profissional, por mais experiente que seja, vai sentir grandes desafios ao fazer uma escolha, pois não lhe faltam ofertas de produtos e serviços.
Apesar da grande oferta de alternativas no mercado, tenho a impressão de que a grande maioria delas são soluções complicadas, confusas e desencontradas. É impressionante a avalanche de informações que cai sobre nossas cabeças diariamente em relação ao assunto indústria 4.0.
Para tudo existe uma maneira inédita e correta de se fazer; todas as soluções são ótimas, porém generalizadas; ninguém faz nada errado; cada serviço é exponencialmente melhor que o do concorrente; milhares de especialistas dão opinião sobre produtos e serviços que sequer utilizam; milhares de resultados incríveis e, para concluir, também temos milhares de nomenclaturas e abreviações cujo significado ninguém sabe.
As repercussões sobre esse emaranhado de informações jogadas ao ar, em vez de ajudar, agravam ainda mais a situação do pobre planejador, pois normalmente adotam explicações e definições erradas ou distorcidas, em que cada autor tem como objetivo principal se diferenciar dos demais. Entendo que a grande maioria dos artigos tem como objetivo básico vender seu produto ou serviço, o que é perfeitamente normal. Porém, não vejo nenhuma demonstração de onde e como os produtos e serviços devem ser aplicados, quais são seus pontos fortes e fracos para as diversas aplicações, como se comunicam com outras tecnologias, como implementá-los e por que utilizá-los.
"Basta adquirir meu produto ou serviço, e você terá sob seus pés um mundo perfeito e maravilhoso, onde tudo vai funcionar espetacularmente bem": o sistema de informação fornece dados corretos e funcionais em tempo hábil, as máquinas e ferramentas nunca irão quebrar e não necessitam sequer de treinamento ou certificação operacional, podendo ser instaladas de qualquer maneira, em qualquer ambiente. Programas de qualidade total fornecem perfeita visibilidade dos resultados, com zero não conformidades — e tudo isso torna a vida dos colaboradores um paraíso absoluto.
No final da jornada, todos fizeram sua parte e cada um recebe suas honras e prêmios pela eficiência. Porém, o resultado efetivo, no chão de fábrica — aquele que realmente opera e faz o produto ou serviço acontecer — paga o famoso mico, jogando os custos e a ineficiência operacional nas alturas e ainda absorvendo a responsabilidade por toda a incompetência da organização.
A partir do momento em que uma empresa se dispõe a comercializar um produto ou serviço a ser aplicado em projetos de tecnologia digital ou automação, deveria explicar muito bem seus benefícios e malefícios operacionais, inclusive comparativos com os de seus concorrentes. Posso utilizar tranquilamente a premissa de que não existem produtos ou serviços ruins, mas posso afirmar que suas aplicabilidades têm vantagens e desvantagens diversas para cada tipo de projeto. O sistema operacional utilizado para produzir tratores pode não ser apropriado para produzir refrigerantes, por exemplo.
Como já mencionei em várias edições aqui nesta coluna, um dos fatores primordiais para o sucesso de uma indústria 4.0 é a simplicidade e a coerência dos seus processos, planejados e definidos dentro de parâmetros lógicos e técnicos de cada cadeia produtiva, sempre com objetivos claros e concisos.
Escolher produtos e serviços de tecnologia é uma arte. Portanto, estude e se debruce sobre os fatos, porque nenhum algoritmo vai te ajudar a fazer melhor — pelo menos por enquanto.
Valorize mais os fatos do que a ilusão!
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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