Inteligência Artificial Industrial é o segmento com maior presença no mercado de startups 4.0

Pesquisa aponta que os termos e tecnologias mais presentes no ecossistema da Indústria 4.0 são Inteligência Artificial e Internet das Coisas.

Por: Elaine Barroso/ Especial CIMM Exclusiva 31/05/2021  

Embora a indústria 4.0 brasileira ainda esteja em uma jornada de amadurecimento, as indústrias estão buscando startups focadas na indústria 4.0 para encontrar soluções e inovações. Relatório aponta que apenas 1,6% da indústria adota a Indústria 4.0, mais conectada, interativa e inovadora. Esse é um desafio: fazer a inovação chegar a toda a indústria. Mas há um campo fértil para isso. Um indicativo disso é a previsão da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que prevê a movimentação de R$15 trilhões nos próximos 15 anos.

O Indústria 4.0 - Report 2021, divulgado em abril deste ano, investigou 447 startups para entender como o mercado da Indústria 4.0 e as startups têm se relacionado. O estudo é uma realização do Distrito, uma plataforma de inovação para startups, empresas e investidores que tem como objetivo disseminar a cultura de inovação. 

O Distrito reuniu startups cuja atividade principal é a inovação, que estão em atividade neste momento, que desempenham papel na Indústria 4.0, e que são brasileiras e atuam no Brasil. 

O relatório inclui o artigo assinado por Marcos Buson, Founder & Managing Partner da Hards, que aponta que o Brasil está apenas no começo da caminhada para encontrar soluções e inovações focadas para a Indústria 4.0. A boa notícia é que a I4.0 está em busca de startups que focam esforços em soluções e redução de custos para resolver dores pontuais. Outro bom indicativo é o aporte da FINEP e Fundos de Amparos à Pesquisa Estaduais que estão apoiando startups em estágios iniciais através de editais. 

Cluster tecnológico

A pesquisa dividiu as startups por cluster tecnológico para conseguir aferir as soluções que cada uma oferece. A constatação foi que o cluster mais presente no mercado, atualmente, é Inteligência Artificial Industrial com 38%. Na sequência aparecem Poder Computacional com  30,2%, Manufatura Avançada com 23,8%, e 8% de interação homem-máquina como drones. Já as categorias mais presentes são Advanced Analytics: 27,74%, Internet das Coisas: 18,12% e Energia: 10,51%. 


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Através de um monitoramento de tags, o relatório aponta que os termos e tecnologias mais presentes no ecossistema da Indústria 4.0. Inteligência Artificial e Internet das Coisas têm os maiores resultados, aplicadas a diversos tipos de indústria, inclusive. O custo de produção relativamente baixo e a capacidade de escalonar soluções se mostram pontos decisivos para que startups que oferecem soluções de software e infraestruturas e unem hardware e software tenham tanta força. Neste sentido, apenas 21% das startups analisadas oferecem apenas hardware, enquanto 42% se concentram em software e outros 35% em infraestrutura.

Ecossistema de inovação e indústria

Nunca o Brasil teve tantas startups operando. O relatório analisou 447 delas, dobrando a quantidade existente em 2014, por exemplo, quando 184 startups foram analisadas. Desde 2013, a pesquisa nota que a relação startup x empresa tem se estreitado mais através dos, importantes, programas de aceleração, hubs especializados, editais, entre outros eventos que fortalecem as parcerias. 

A Região Sudeste tem o maior número de startups focadas na Indústria 4.0 do Brasil com 61,30% das empresas pesquisadas. O sul aparece com 31,54%. Observando o recorte por estados, São Paulo tem o percentual de 29,8% seguido por Rio de Janeiro, 11,4% e Minas Gerais 10,9%. O relatório registra, negativamente, que a desigualdade regional em relação ao empreendedorismo de inovação é significativa.

A pesquisa também contabilizou mais de 9.200 postos de trabalhos ocupados diretamente com a Indústria 4.0. As empresas de Cloud & Edge Computing e Advanced Analytics empregam o maior número de pessoas. O relatório explica que mesmo com o número baixo de empresas de soluções em computação em nuvem, elas são mais maduras e, portanto, maiores do que a média das outras startups. 

Um dado bem específico demonstrou que as startups têm tido como foco trabalhar no sistema B2B ao invés de se relacionarem diretamente com os clientes finais (B2C). Esmagadores 89,3% das startups pesquisadas, trabalham com soluções e serviços para empresas. 

Startups em destaque

Levando em consideração um algoritmo de scoring que contabiliza o número de funcionários, faturamento presumido, funding captado e métricas de redes sociais, foi elaborada uma lista das 10 empresas de maior destaque.

A categoria com maior presença no top 10 foi inteligência artificial para Advanced Analytcs, com sete de dez. Três dessas dez do setor de agronomia. Formaram a lista: Solinftec, Smart Breeder, Open Tech, Radix, Sky One, Horus, Semantix, Gênica, Savity e Intelie.  

O relatório também apresentou uma amostragem levando em conta o número de funcionários e seguidores no Linked’In. Isso para definir a visibilidade da empresa. As duas empresas com maior destaque foram a Radix e Pollux Automotion. 

Também foi aferida a quantidade de acessos aos sites das empresas através do SEMRush, considerando o mês de março. Especialista em manufatura aditiva, a 3D Criar teve mais de 72 milhões de acessos, liderando a lista. O motivo atribuído a este resultado foi a variedade de setores em que a empresa faz negócios e os públicos variados que busca atingir. 

Investimentos

O relatório aponta que o mercado privado ainda tem muito para evoluir. São poucos os dealers no mercado em comparação a outros mercados, como o comércio de bens e serviços, por exemplo. Foram apenas 16 em 2020, sendo 22 o melhor resultado histórico. O valor investido, entretanto, deu um salto de R$ 11,66 milhões, em 2019, para R$ 61,51 milhões em 2020. 

Um dos motivos apontados para o baixo investimento são as rodadas em que os investidores têm participado. Como optam por participar dos passos iniciais, o capital pode ser menor, ao passo que conforme as startups avançam para fases em que são captados mais recursos têm recebido menos investimento. 

Cinco investidores apareceram neste ano, número pequeno. Se comparado a outros anos, o número é parecido. Ao final do ano nessa projeção haveriam 15 deals, sendo que em 2020 foram 16. 

A categoria que mais atrai investidores é o Advanced Analytics. Apenas a Solinftec captou R$ 60 milhões, liderando o mercado e disputando como candidata à unicórnio - quando a empresa alcança cifras bilionárias. Sem essa startup, o mercado se mostra equilibrado. 

Empresas ligadas ao agronegócio aparecem entre os maiores investimentos. Explicado isso pelo foco do mercado brasileiro em extrativismo, indústria e tecnologias digitais, ressalta o relatório.

No entanto, o capital de investimento ainda é tímido nesse setor, mas o relatório aponta para um terreno fértil para aquisições e fusões. De 2017 para cá foram 12  aquisições. Entre elas da Siemens que adquiriu a WEG e Pollux adquirida pela Automation, o que indica que os players estão atentos ao mercado brasileiro. 

O relatório destaca ainda empresas internacionais como a alemã Arculus do mercado de linha de montagem modular que passou de um valor de US$ 3 milhões, em 2019, para US$ 17,4 em 2020, e a japonesa Ascent que em quatro anos deu um salto de US$ 800 mil para US$ 10,4 milhões. 

O mercado mudou e até as manufaturas percebem que se transformaram também em coletoras de informações e provedoras de inteligência. O resultado da mudança deixa o mercado otimista e com previsões de a IoT gere US$ 15 trilhões no PIB mundial até 2030, e de US$ 56 milhões em investimentos da manufatura aditiva até 2027. 

Sustentabilidade em foco

O Distrito criou um filtro GreenTech para segmentar as startups que buscam soluções sustentáveis. Com 33,73%, as startups ligadas à categoria de Energia são as grandes representantes da busca por um melhor aproveitamento dentro do seu ramo. A Internet das Coisas, com 22,89%, também teve um resultado expressivo tendo como guia a diminuição do uso de recursos. Um exemplo prático vem dos Materiais Avançados que tiveram 15,66% do total da pesquisa focados na substituição de materiais poluentes por versões mais limpas como plásticos biodegradáveis, por exemplo. 

O que se pode esperar do mercado?

Segundo o relatório, pode-se esperar um mercado cada vez mais focado em sustentabilidade e inovação. A velocidade de novas ideias e aplicações é constante e um mercado 5.0 já está em vista. Enquanto esse momento não chega, quais são as tendências?

Pode-se esperar uma transição orientada à Governança Ambiental, Social e Corporativa. Isso quer dizer, um foco cada vez maior à serviço da sustentabilidade, aproveitando-se de materiais locais e diminuindo o uso de recursos, por exemplo.

Outra forte tendência apontada é a aceleração da indústria com a chegada da tecnologia 5G que irá revolucionar o mercado, principalmente nas  elevadíssimas taxas de transmissão, a alta confiabilidade de rede, latência próxima a zero e alta capacidade de rede. 

Casos de sucesso

O fim dos atropelamentos

O relatório traz também cases de sucesso. Casos em que a Indústria 4.0 buscou ajuda e encontrou a resposta nas startups. A Vale, mineradora multinacional brasileira, lançou o desafio e a Brisa Robótica encontrou uma solução para evitar atropelamentos em linhas férreas. A startup brasileira que foca em segurança, eficiência e produtividade desenvolveu um mapeamento online de circulação de pessoas.

As linhas férreas geralmente são lugares muito movimentados e que exigem atenção redobrada de quem está trabalhando. O objetivo da parceria era acabar com acidentes. A solução foi instalar câmeras dedicadas, tecnologia embarcada em equipamento móvel e alarmes. Com essa combinação do monitoramento da colisão entre máquinas e pessoas, máquinas e máquinas e a possibilidade de frenagem automática reduziu drasticamente a chance de acidentes. 

Ação conjunta aumenta segurança em linhas férreas urbanas

Mais um case que inovou nas linhas férreas. A maior operadora ferroviária do Brasil, a Rumo, que mantém 14 mil quilômetros de ferrovias pelo país, buscava uma solução para evitar acidentes em zonas urbanas e com o Fuse, um Edital de Inovação Aberta encontrou. Foram 180 projetos inscritos e quatro selecionados. Uma das quatro selecionadas foi a proposta da UTrem que instalou a solução em Curitiba e teve como resultado um aumento significativo na percepção das pessoas em relação a passagem dos trens. 

Painéis de comunicação, sensores que conversam com outros dispositivos IoT e geram os alertas foram instalados e o resultado foi que 97% dos pedestres e motoristas sentiram mais segurança e perceberam os alertas para evitar acidentes. Demonstrando assim, que tecnologias da Internet das Coisas, aplicadas a Indústria 4.0 podem resolver inúmeras soluções. 

Duas soluções em Iot

Com técnicas da Internet das Coisas (IoT) foi possível montar um sistema de monitoramento de condição e, com o apoio de Inteligência Artificial, analisar dados que podem indiciar, por exemplo, quando uma máquina estará mais propensa a quebrar. Essa foi a solução produzida pela Bosch que englobou manufatura enxuta (Lean), IoT e IA. O Lean serviu para trazer as empresas ao ponto necessário para integrar a Indústria 4.0, visto que muitas fábricas ainda possuem baixo grau de automação e conectividade industrial. Mais um case de sucesso que demonstra o potencial de inovação e da Indústria 4.0.

A IoT também deu certo para a Randon, destacada mundialmente no mercado de reboques e semirreboques, que tinha os seguintes problemas: relatórios atrasados e risco de imprecisão nos processos. A parceria com a Sirros, especializada em IoT, aplicou dispositivos para monitorar as carretas na fábrica. Tudo isso na tela do tablet ou celular. O resultado foi uma disponibilidade de 4% das máquinas, ou seja, possibilidade para mais produtividade. 

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