Uma das maiores dores da Indústria 4.0 é a complicação e a falta de objetividade das ideias, o que, na maioria das vezes, gera aumentos no montante de capital a ser investido em automatização e cria enormes dificuldades operacionais naquela cadeia produtiva.
Me parece que é uma tendência natural do ser humano, principalmente daqueles com cacoetes de natureza técnica, criar soluções extremamente complicadas para se chegar aos objetivos finais desejados. Geralmente, isso acontece por motivos que configuram uma falta de planejamento e conhecimento operacional sobre sua cadeia produtiva.
Não quero também deixar de lado os casos de exaltação dos próprios conhecimentos técnico e profissional dos colaboradores sobre o assunto. O complicado e caro são vistos, por muitos profissionais, como sinônimos de sofisticação e superioridade técnica. Porém, os conflitos operacionais gerados por esses comportamentos são normalmente desprezados ou subestimados.
Para aqueles mais observadores, e também para os mais curiosos, torna-se muito fácil detectar casos, em nosso cotidiano, que se enquadram na ideologia da complicação — e que, logicamente, também são levados para dentro de nossa vida profissional e/ou educacional.
Apesar das enormes diferenças operacionais entre uma indústria e uma residência, podemos fazer uma perfeita analogia dos exemplos nos dois casos que se enquadram na ideologia da complicação.
É o caso daquela panela que é usada diariamente e fica guardada no fundo do armário, enquanto aquela outra, raramente usada, fica na frente — portanto, muito fácil de acessar.
A bandeja mais pesada sempre fica na prateleira mais alta, onde o banquinho se torna indispensável, enquanto as menores estão no andar de baixo, ao alcance de todos.
Outro bom exemplo seria a água da ducha, que é extremamente aquecida no boiler, porém depois, na hora do banho, é misturada com a água fria para resfriá-la.
Temos também aqueles processadores de alimentos que processam tudo de maneira ultra rápida, porém, depois de cada uso, gastamos um tempo enorme para lavá-los.
Na indústria, o exemplo famoso e corriqueiro são as inúmeras bitolas de porcas e parafusos existentes nos produtos/equipamentos. Logo, impera a necessidade de se trabalhar com enorme diversidade de ferramentas durante uma manutenção ou montagem.
Continuando nas porcas e parafusos: estes são comprados em sacos com enorme quantidade para reduzir seus custos (palmas para o comprador). Porém, seus abastecimentos são feitos em quantidades menores do que aquelas dos sacos grandes. Logo, adiciona-se uma operação de contagem dentro do estoque durante o processo de abastecimento; acrescenta-se uma balança contadora, compram-se sacos menores, imprimem-se etiquetas de identificação e utiliza-se uma seladora que consome energia e requer calibração periódica (pêsames ao abastecedor de peças). Por que não comprá-los já embalados na quantidade exata de cada abastecimento?
Poderia aqui citar inúmeros casos em que conseguimos complicar nosso cotidiano operacional, tanto dentro de casa como dentro da indústria, copiando ou aplicando as ideias sem ao menos associar sua lógica e coerência no contexto total da cadeia produtiva.
Cada um coloca sua panela onde achar melhor e aquece sua água quanto quiser. Porém, esse tipo de comportamento, quando aplicado na Indústria 4.0, pode trazer infortúnios operacionais imensos, onde muitas vezes a correção fica impossível de ser feita, ou seu custo para fazê-la é proibitivo.
A coerência nos fluxos de materiais e suas respectivas movimentações é imprescindível na operação de uma fábrica inteligente, onde tudo deve fluir com a maior naturalidade e previsibilidade — pois é aí que existe uma das maiores fontes de desperdício de tempo e dinheiro em uma cadeia produtiva.
Importante lembrar que todo o conjunto operacional deve movimentar-se sempre na mesma cadência. Portanto, é crucial o grau de simplicidade operacional a ser aplicado, tanto nas movimentações como nas operações de maneira geral.
Os acessórios, tais como ferramentas, manutenção, análise dos controles — todos devem orbitar os processos da maneira mais simples e funcional possível, onde qualquer um possa entender o fluxo básico da cadeia produtiva.
A ideologia da complicação na Indústria 4.0 é um fator que não pode ser desprezado de maneira alguma. Portanto, deve ser analisado com critérios específicos e parametrizados, caso a caso, processo a processo, para não gerar gargalos nem processos complexos sem necessidade.
Identifique seus objetivos e construa a solução do zero (Técnica de Feynman).
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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