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Canal Indústria 4.0

Os 8 principais obstáculos para a maturidade digital na indústria

Segunda matéria da série baseada no Industry 4.0 Barometer 2026 analisa por que a escassez de profissionais qualificados, os sistemas legados e as incertezas sobre o retorno dos investimentos ainda limitam a transformação digital industrial

Por: Stefani Ceolla, Jornalista Especial Grupo CIMM      Exclusiva  

Depois de mostrar que a adoção da inteligência artificial em escala depende de dados integrados, infraestrutura e processos digitalizados, a série avança sobre as barreiras que dificultam a construção desses fundamentos. O Industry 4.0 Barometer 2026, realizado pela MHP em parceria com a LMU Munich, dedica um dos seus seis eixos temáticos aos principais obstáculos à transformação digital da indústria.

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Entre os entraves considerados mais relevantes estão a escassez de profissionais qualificados e a dificuldade de integrar sistemas legados. O estudo também chama atenção para o crescimento da incerteza sobre o retorno dos investimentos, os silos de dados e as estruturas organizacionais que dificultam a implementação das tecnologias em escala.

De acordo com a pesquisa, em 2025, 41% dos entrevistados afirmaram que a adoção de tecnologias da Indústria 4.0 sofria atrasos devido à dificuldade de contratar profissionais qualificados. Em 2026, esse percentual subiu para 54%. 

O crescimento pode ser explicado, em parte, pelo aumento da demanda por profissionais altamente qualificados, impulsionada pelo avanço de novas tecnologias e pela crescente pressão por inovação, diz o relatório.

Além disso, os atrasos provocados pela existência de sistemas legados de Tecnologia da Informação (TI) continuam sendo uma das barreiras mais percebidas pelas empresas. O percentual de entrevistados que apontam esse problema aumentou de 48% em 2025 para 52% em 2026.

O estudo também destaca que os silos de dados são percebidos de forma crescente como uma barreira em todas as regiões pesquisadas. Em média, 49% dos entrevistados apontam esse problema, incluindo os países incorporados pela primeira vez ao levantamento, Índia e México. Nesses dois mercados, os índices são particularmente elevados: 68% na Índia e 55% no México.


O mesmo comportamento é observado em relação à percepção de que a adoção de tecnologias da Indústria 4.0 é retardada pela falta de troca integrada de dados com parceiros ao longo da cadeia de valor. Entre todas as regiões analisadas, apenas o Reino Unido apresentou redução nesse indicador, que caiu de 41% para 35%.

Contexto político-econômico

A incerteza em relação ao retorno sobre o investimento (ROI) apresentou crescimento acentuado, passando de 38% dos entrevistados em 2025 para 51% na pesquisa atual. Na comparação internacional, essa preocupação se destaca nos Estados Unidos e na China. Segundo o estudo, essa percepção pode estar relacionada à crescente imprevisibilidade dos mercados e à adoção de tecnologias novas e ainda pouco conhecidas.

Outro aspecto analisado é o supply chain. Em 2025, 31% dos entrevistados consideravam os problemas na cadeia de suprimentos uma barreira para a adoção da Indústria 4.0. Em 2026, esse índice aumentou quase 9 pontos percentuais, refletindo possíveis impactos de fatores como as tarifas impostas pelos Estados Unidos, os controles de exportação da China, a elevação dos preços de energia e matérias-primas e outros acontecimentos geopolíticos.

Diferenças entre mercados

Na comparação entre os países, os obstáculos são percebidos como menos significativos nos Estados Unidos, enquanto as empresas da Índia são as que mais relatam dificuldades.

A comparação internacional revela um padrão consistente: os mercados asiáticos — especialmente a China — e os Estados Unidos estão implementando novas tecnologias digitais de produção de forma significativamente mais rápida, abrangente e integrada do que as empresas europeias.

O que explica a diferença de velocidade entre as organizações é a capacidade de criar as condições necessárias para implementar essas tecnologias em escala, segundo a pesquisa. As empresas que avançam mais rapidamente já possuem uma base digital consolidada, com integração entre TI e tecnologia operacional, sensores distribuídos pela fábrica, coleta e análise de dados em tempo real, gêmeos digitais e arquitetura de dados integrada. Sem essa infraestrutura, tecnologias como a inteligência artificial permanecem restritas a projetos-piloto.

O relatório destaca ainda que a transformação digital depende de uma liderança clara. "É preciso haver liderança de cima para baixo, ou seja, gestores que digam: vamos fazer desta forma a partir de agora, e eu darei todo o suporte a vocês, mesmo que as coisas não saiam como o esperado", diz Chris-Markus Kratz, diretor global da Amazon Web Services.

O estudo conclui que organizações que investem em infraestrutura digital, eliminam silos de dados, modernizam sistemas legados, desenvolvem competências internas e contam com uma liderança comprometida conseguem transformar tecnologias como inteligência artificial, IIoT e gêmeos digitais em ganhos reais de produtividade e competitividade. Já aquelas que negligenciam esses fundamentos tendem a permanecer em projetos-piloto, mesmo tendo acesso às mesmas soluções tecnológicas.

“Próxima fase da Indústria 4.0 exige uma integração muito maior” 

O estudo aponta que os principais obstáculos não são tecnológicos, mas organizacionais, estruturais e relacionados à gestão de dados.O sucesso passa pela capacidade das empresas de superar essas barreiras organizacionais e estruturais para criar uma base sólida sobre a qual aplicações como inteligência artificial, Internet Industrial das Coisas (IIoT) e manufatura definida por software possam gerar ganhos reais de produtividade e competitividade.

Henning Kagermann, um dos idealizadores do conceito de Indústria 4.0, assina o prefácio do estudo, e destaca a importância da transformação digital para manter a competitividade da indústria. Para ele, a próxima fase da Indústria 4.0 exige uma integração muito maior entre software, dados e manufatura, tornando a digitalização um requisito estratégico e não apenas operacional.

Principais barreiras

  1. Escassez de mão de obra qualificada: O relatório identifica a falta de profissionais especializados como um dos principais entraves para a digitalização industrial. Os autores ressaltam que a transformação digital depende de profissionais capazes de integrar automação, software, análise de dados e inteligência artificial.
  2. Limitações de capacidade: Outro desafio citado é a dificuldade das empresas em dedicar recursos às iniciativas de digitalização. Isso inclui restrições de pessoal, orçamento e tempo para executar projetos de transformação digital sem comprometer a operação cotidiana.
  3. Problemas na cadeia de suprimentos: O estudo também cita os gargalos na cadeia de fornecimento como fator que atrasa investimentos tecnológicos. Esses problemas dificultam a aquisição de equipamentos, sensores, componentes eletrônicos e sistemas necessários para modernizar as fábricas.
  4. Incerteza sobre ROI: O relatório aponta que muitas empresas ainda hesitam em investir devido à dificuldade de comprovar financeiramente os benefícios da transformação digital. Segundo os autores, essa percepção reduz a velocidade da adoção de tecnologias digitais.
  5. Silos de dados: Entre os fatores que favorecem a digitalização, o estudo destaca justamente a eliminação dos chamados silos de dados. Isso significa integrar informações que hoje permanecem isoladas em diferentes departamentos ou sistemas. Sem essa integração, torna-se difícil implementar aplicações de inteligência artificial, análise de dados e automação avançada.
  6. Sistemas legados: Outro desafio recorrente é a convivência com equipamentos e softwares antigos. Muitas empresas possuem máquinas de diferentes gerações que utilizam padrões distintos de comunicação, dificultando a integração dos dados industriais.
  7. Baixo conhecimento sobre Software-Defined Manufacturing: O estudo mostra que a falta de conhecimento sobre o conceito de SDM também representa uma barreira importante. Apenas 3% dos entrevistados na região DACH afirmam conhecer o conceito de Software-Defined Manufacturing. Na China e na Índia, esse percentual chega a 30%, indicando uma vantagem desses países na preparação para a próxima etapa da Indústria 4.0.
  8. Falta de infraestrutura digital: O relatório reforça que inteligência artificial e Software-Defined Manufacturing dependem de uma infraestrutura previamente construída. Ao longo do estudo, os autores deixam claro que a IA só consegue gerar ganhos reais quando existem: sensores instalados nas máquinas; dados de qualidade; integração entre TI (IT) e tecnologia operacional (OT); gêmeos digitais; conectividade entre equipamentos. Sem esses elementos, a transformação digital tende a permanecer restrita a projetos-piloto.

Os obstáculos à maturidade digital, portanto, não estão concentrados em uma única tecnologia. Eles envolvem pessoas, capacidade de investimento, integração de dados, modernização de sistemas e construção de uma infraestrutura digital capaz de sustentar aplicações mais avançadas. Superar essas barreiras é o que permite à indústria avançar de projetos isolados para uma transformação efetivamente integrada à operação.

Na próxima matéria, a série explica o conceito de Software-Defined Manufacturing e mostra o que muda quando o software passa a ocupar um papel tão estratégico quanto máquinas e equipamentos na fábrica.

Acompanhe aqui todas as matérias da série Manufatura em Transformação 2026: Maturidade digital e integração.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

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