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Entenda o conceito de Software-Defined Manufacturing, a próxima fronteira da indústria digital

Última matéria da série baseada no Industry 4.0 Barometer 2026 explica o modelo em que o software passa a comandar e orquestrar a produção industrial

Por: Stefani Ceolla, Jornalista Especial Grupo CIMM      Exclusiva  

Depois de analisar os fundamentos necessários para ampliar o uso da inteligência artificial e os principais obstáculos à maturidade digital, a série chega à próxima etapa dessa transformação. O Software-Defined Manufacturing (SDM) é o tema central do Industry 4.0 Barometer 2026, realizado pela MHP em parceria com a LMU Munich. Nesse modelo, o software passa a desempenhar um papel central na coordenação e na adaptação dos processos produtivos. 

O estudo defende que o SDM representa uma nova fronteira da indústria digital e tende a se tornar um dos principais fatores de competitividade para as fábricas nos próximos anos. O relatório define o SDM como um modelo em que o software passa a comandar e orquestrar a produção, em vez de a operação depender diretamente do hardware das máquinas.

Segundo o estudo, o SDM permite separar o controle da produção do hardware, criar uma camada central de software para coordenar toda a fábrica, tornar a manufatura mais flexível e escalável, e acelerar a implementação de inovações.

“O Software-Defined Manufacturing é mais do que um termo da moda — é uma ferramenta de sobrevivência. Ao desvincular o controle da produção do hardware, cria-se uma camada central de software que torna a manufatura flexível, escalável entre diferentes unidades e preparada para a inovação”, explica no prefácio do estudo Markus Wambach, COO da MHP.

Leia mais: Manufatura em Transformação 2026 - Tecnologia, pessoas e investimentos

Mudança de paradigma

Para os autores do Industry 4.0 Barometer 2026, quando o software passa a ser tão estratégico quanto máquinas e equipamentos, ocorre uma mudança de paradigma na manufatura. A competitividade deixa de depender apenas da capacidade física instalada e passa a ser determinada pela capacidade de controlar, integrar e otimizar a produção por meio de software e dados.


O relatório pontua que a excelência industrial deixa de depender apenas da qualidade das máquinas e passa a ser construída sobre três pilares: software, dados e arquitetura integrada entre Tecnologia da Informação (IT) e Tecnologia Operacional (OT).

Para Christian Fiebig, da MHP, o SDM “representa um salto de paradigma para as fábricas em termos de eficiência e flexibilidade”. Ele acrescenta que “uma produção totalmente digitalizada, sem barreiras entre IT e OT, aliada ao uso de gêmeos digitais para produtos e processos e ao acesso a dados em tempo real, possibilita a otimização e a escalabilidade de todo o sistema produtivo, elevando a competitividade industrial a um novo patamar”.

Em entrevista ao portal Indústria 4.0, Eric Vieira, Software and Control Business Segment Manager da Rockwell Automation, avaliou que, hoje, “o controle industrial caminha para se tornar software-defined, com lógica desacoplada do hardware e capaz de ser projetada, versionada e validada em ambientes totalmente digitais”.

IA e gêmeos digitais

O relatório afirma que tecnologias como inteligência artificial, Internet Industrial das Coisas (IIoT), metaverso industrial e gêmeos digitais dependem da existência de uma arquitetura baseada em SDM. Sem essa base, aplicações de IA tendem a permanecer restritas a projetos-piloto.

Um dos cases apresentados na pesquisa é o da V4Smart, joint venture formada entre a Porsche e a Varta que pretende redefinir a produção de células de bateria na Alemanha por meio de processos controlados por software. 

O CEO da empresa, Lutz Kramer, explicou como o Software-Defined Manufacturing e o uso de um gêmeo digital tornaram possível iniciar a produção em série em apenas alguns meses. "O que nos diferencia é a forma como fazemos do gêmeo digital a espinha dorsal da fábrica, sem concessões. Esse é um dos nossos principais diferenciais competitivos", afirmou Kramer na pesquisa.

O relatório mostra que empresas mais maduras digitalmente utilizam intensamente gêmeos digitais. Entre os exemplos citados, 84% das empresas chinesas utilizam gêmeos digitais na logística, enquanto na região DACH - Alemanha, Áustria e Suíça - esse percentual é de 42%. 

Implementação pelo mundo

O estudo afirma que um ambiente SDM depende de dados contínuos, sensores, gêmeos digitais e integração de ponta a ponta. Esses elementos permitem simulações, otimização automática, manutenção preditiva, planejamento inteligente e decisões em tempo real.

Um dos dados mais relevantes é o nível de familiaridade com o conceito. Na China e na Índia, o percentual de entrevistados que afirmam conhecer muito bem o Software-Defined Manufacturing é de 30%; no México, de 18%; nos Estados Unidos, de 14%; no Reino Unido, 6%; e na região DACH, de 3%.

Segundo o estudo, China, Índia e Estados Unidos avançam mais rapidamente porque já investem em arquiteturas modernas de IT/OT, software como elemento central da produção, infraestrutura de dados integrada e automação baseada em software.

“Especialmente ao realizar investimentos de capital em mercados de alto crescimento, como os de defesa e produção de baterias, o SDM deve ser considerado desde o início. Isso permite uma industrialização mais rápida, escalabilidade flexível e competitividade de longo prazo”, defende na pesquisa Walter Heibey, do Grupo Porsche.

O relatório deixa claro que o SDM já é tecnicamente viável, mas enfrenta desafios. Os principais são os sistemas legados, os silos de dados, a falta de profissionais qualificados, o baixo conhecimento sobre SDM e as dificuldades para integrar sistemas históricos. Ou seja: o problema deixou de ser tecnológico e passou a ser organizacional e estrutural.

Segundo os autores, empresas que não integrarem estrategicamente produção, software e dados correm o risco de perder competitividade no mercado global.

SDM no Brasil

O managing director Marcelo Magdaloni alerta, em um artigo, que “boa parte da indústria brasileira ainda está discutindo máquina, enquanto isso, o mundo já decidiu: o jogo é software. Isso não é atraso. É perda de competitividade”.

Em abril de 2026, a Schneider Electric, líder global em tecnologia de energia, e a Stefanini IHM, anunciaram a assinatura de um Memorando de Entendimentos (MoU) com o objetivo de colaborar estrategicamente na disseminação da automação aberta e definida por software (Software-Defined Automation – SDA) no mercado brasileiro.

“Ao separar software e hardware, a automação definida por software rompe esse limite, permitindo que as indústrias evoluam seus sistemas de forma gradual, com menos risco, mais liberdade tecnológica e investimentos alinhados ao ritmo do negócio”, afirma Carlos Selestrin, diretor de Industrial Automation da Schneider Electric.

14 Recomendações do estudo para o Software-Defined Manufacturing

  • Tratar o SDM como um princípio estratégico, e não apenas como uma nova tecnologia.
  • Desacoplar o software do hardware, permitindo que o controle da produção seja feito por uma camada central de software.
  • Integrar TI e TO para criar uma arquitetura de produção conectada.
  • Adotar arquiteturas modulares, com interfaces padronizadas e sistemas preparados para futuras expansões.
  • Implementar o SDM de forma gradual em fábricas existentes (brownfield), priorizando casos de uso específicos e reduzindo riscos.
  • Aproveitar projetos de novas fábricas (greenfield) para implantar o SDM desde o início, sem as limitações de sistemas legados.
  • Avaliar o nível de maturidade digital da empresa antes da implementação, identificando dependências e prioridades.
  • Planejar a migração por etapas, equilibrando aspectos técnicos, organizacionais e econômicos.
  • Implantar novas funcionalidades progressivamente, gerando benefícios desde as primeiras fases e evitando aumento excessivo da complexidade.
  • Estabelecer uma governança clara para o SDM, definindo responsabilidades e processos de decisão.
  • Promover a integração entre as áreas de TI, tecnologia e produção, evitando iniciativas isoladas.
  • Envolver a alta liderança (como CIO, CTO e gestores da produção) para transformar o SDM em um objetivo estratégico compartilhado.
  • Fortalecer a capacidade de gestão da mudança, especialmente em projetos de grande porte, para garantir adoção e escalabilidade.
  • Construir uma infraestrutura digital sólida, com dados integrados, interoperabilidade e processos padronizados, criando a base para aplicações de inteligência artificial, gêmeos digitais e Internet Industrial das Coisas (IIoT).

Leia aqui todas as matérias da série Manufatura em Transformação 2026: Maturidade digital e integração.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

 

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