Das primeiras tecnologias da Idade da Pedra - como facas e lanças - vieram as primeiras máquinas, manuais e à vapor. A eletricidade permitiu o surgimento dos computadores. A Internet e diversas outras tecnologias ajudaram a moldar e redefinir o trabalho no século XX e nos trouxeram imensos benefícios.
Mas a tecnologia de IA (Inteligência Artificial) está acima disso. Seu potencial a coloca em uma outra “dimensão”! Esqueçamos uma certa desilusão e alegados ‘fracassos’ de projetos de empresas que estão agora tentando incorporar IA nos seus processos. Isso ocorreu com inúmeras outras tecnologias (alguém ainda se lembra quando a IBM desdenhou dos computadores pessoais quando eles surgiram nos anos 1980?).
Com (ainda muitas) limitações como qualquer outra tecnologia emergente (muito embora sua “criação” venha já dos anos 50-60 assim como a dos agentes inteligentes venha já de meados de 80), ela evoluirá. E já o vem, e cada vez mais rapidamente. E passará a ter condições de lidar com inúmeros tipos de tarefas e ações (com variados graus de supervisão ou intervenção humana, inclusive sem nenhuma), que incluem operar, controlar, vigiar, fazer, recomendar, ajudar, proibir, medir, analisar, avaliar, julgar, decidir, atuar, orientar, influenciar, direcionar, selecionar, predizer, reconhecer, diagnosticar, prescrever, negociar, propor, encontrar, criar, ensinar, pesquisar, treinar, mostrar, correlacionar, explicar, agrupar, gerar, etc.
Algumas outras tecnologias também fazem algumas dessas coisas, mas de forma basicamente isolada. A IA fará isso de forma largamente mais eficaz, integrada, abrangente e inteligente que um ser humano “padrão” ou sistema tradicional, e ainda permanentemente aprendendo e se automelhorando. Em ciclos cada vez mais curtos, em velocidade e capacidade infinitamente maiores do que a própria capacidade cognitiva e física do humano, quer dele fazer e acompanhar, quer dele compreender suas causas, funcionamento e consequências.
A IA não é apenas uma ferramenta tecnológica. É também um novo paradigma. Uma meta-plataforma social, de trabalho, entretenimento e de negócios (e possivelmente de governos), “em cima” da qual tudo passará a funcionar, dentro de um mundo cada vez mais ‘VUCA’ (volátil, imprevisível, complexo e ambíguo) e hiper conectado. A IA passará a ser o novo “sistema operacional” das organizações. Assim como o sangue leva às células e nutrientes para todas as partes do corpo, com a IA os dados, aprendizagem e conhecimento gerados alimentarão todas as partes delas.
É também não apenas uma tecnologia em si, isolada. Mas uma meta-tecnologia. Através dela, e via ela, inúmeras outras tecnologias e o desenvolvimento de novas ideias, produtos e serviços serão viabilizados.
Através dela, e via ela, inúmeras coisas estarão à mão de um indivíduo qualquer, de qualquer lugar, acessar, pedir, fazer, ou mesmo produzir, mesmo sem um conhecimento superespecializado. E quando somado às paralelas revoluções – igualmente aumentadas pelo uso intensivo de IA – na computação quântica (e ao cada vez mais fácil e barato acesso a “infinitos” recursos computacionais), na ciência dos materiais, na nanotecnologia, na (nano)robótica (estacionária e móvel), nas telecomunicações, nos sistemas de energia, nos sistemas computacionais e ciberfísicos com crescente autonomia, nos wearables, nas interfaces simbióticas adaptativas humano-máquina com realidade espacial, na farmacologia, na fotônica, e na biologia sintética, isso poderá ser feito quase que de forma irrestrita. Por vezes de casa, de posse de um mero laptop conectado à rede.
Novos modelos de negócios, produtos e serviços serão necessários e os atuais ficarão completamente obsoletos. Assim como atualmente nem mais se pergunta se seu produto/serviço incorpora “computador”, software, Internet, etc., com a IA será o mesmo. “Tudo” passará por incorporar e usar IA, em diferentes momentos ou pontos. As modernas empresas (e seus produtos, sistemas e máquinas/equipamentos) passarão de data-driven e com rígidos e normativos processos de negócios, para intelligence-driven, adaptativas, com muitos dos seus processos de negócio sendo definidos “on-the-fly”, trans e inter organizações, de forma flexível, agilmente, de acordo com a necessidade do momento, permeados por variados níveis de autonomia e auto-monitoramento/gestão/manutenção/correção, viabilizados pela e implementados com IA.
“Coisas” a serem facilmente ‘transportáveis’ para ou fabricadas em impressoras 3&4D ... suas próprias, ou impressas no que as “lojinhas de ‘xerox’” se transformarão no futuro: centros de impressão de produtos (total ou de peças). Marketplaces deixarão de ser apenas de software e apps, mas também de especificações de produtos/peças e seus desenhos, para poderem depois serem impressos “em casa”, com n possibilidades de personalizações. Meta-serviços de IA ajudarão a que serviços de software possam ser encontrados nos mais variados repositórios digitais e facilmente plugados – como peças de Lego – para rapidamente se construir novos produtos e soluções de software.
O acesso rápido e fácil da IA por colaboradores fará com que modelos organizacionais, classicamente hierárquicos, centralizados e baseados no comando-controle, sejam varridos dos manuais de gestão, dando lugar aos em rede, emergentes, colaborativos, baseados em resultados, trocas de ideais e sínteses a partir da inovação aberta.
Isso tudo acima talvez venha a representar realmente a 5ª Revolução Industrial. O próprio conceito de “indústria” deverá ser profundamente repensado.
O problema é que a maioria das empresas ainda vive de seus produtos e modelos de negócios antigos, e apenas tenta inserir algumas tecnologias modernas: Vende leite com carroça a cavalo para entregar manualmente de porta em porta. E acha que vai sobreviver bastando se modernizar com as tais “tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0”: como que colocando sensores nas rodas da carroça para medir o desgaste e fazer manutenção preventiva, traçando melhor a rota com IA para minimizar a logística do cavalo, fabricando o eixo da roda com impressora 3D, equipando o carroceiro com óculos de realidade virtual para ele poder ver melhor de noite e estender o período de entrega, instalando um gêmeo digital para o dono ver de casa se o carroceiro está realmente entregando, dando a opção do cliente agora poder pagar por PIX, monitorar a saúde do cavalo, etc.
Outro aspecto fundamental de diferente com a IA é o seu propósito. Contrariamente às tecnologias vigentes, que em termos gerais tinham o objetivo principal de ajudar o ser humano complementando o seu trabalho em termos de ‘fazer’ e o ser humano é quem pensava e decidia, a IA visa em boa medida substituir o ser humano em várias tarefas. Portanto, não apenas no fazer, mas também no pensar e decidir.
A IA passará a ser também uma das criadoras e controladoras de máquinas e tecnologias, e o humano tenderá perigosamente a simplesmente “obedecê-la” em se continuando no ritmo e direção atuais. Afinal, qual humano “ousará” discordar da IA depois dela processar petabytes de dados e históricos? Como preparar os futuros colaboradores para adotarem uma postura também de análise crítica e ética ao que a IA gera e propõe de decisões e ações?
Na verdade, as próprias empresas e fábricas passarão a ter seus gerenciamentos ajudados pela IA, como um meta-gestor, com acesso a tudo, com grande autonomia. Em algumas, será como que mais um membro do Conselho de Administração. Em outras, será talvez o próprio CEO. A governança e compliance determinarão os limites.
Se antes, como ocorreu na 1ª Revolução Industrial, quando tecelões invadiram as fábricas para destruir as máquinas como uma tentativa de conter a expansão da tecnologia, isso era possível porque tudo era físico, local, “finito”. Agora ‘tudo’ é virtual, distribuído, ubíquo, móvel, replicado e replicável, “infinito”, ou mesmo embarcado em bilhões de dispositivos, dos mais variados tipos, implantados e rodando “por aí”, incluindo os humanoides e veículos autônomos (terrestres, (sub)aquáticos, aéreos e espaciais).
Sua organização ou empresa (i.e., você e seus colaboradores) não está pensando ainda nisso? Se não, já está atrasada ... e muito ! O que não significa – de forma alguma – que implantar uma grande mudança dessas deva ser feito de qualquer jeito e às pressas ! Cada um tem o seu timing, inclusive em função da sua cultura, nível de maturidade digital, recursos financeiros e humanos, etc. Por outro lado, você pode usar todo tipo de “desculpa” para não começar ou ir bem devagar... mas tenha a certeza absoluta de que vários dos seus concorrentes estão já pensando e fazendo!
Este post não é nenhuma apologia à IA ou visão ufanista. É apenas uma leitura, racional. Receios (pertinentes) à parte, é indiscutível que isso vai acontecer. Apenas ainda não se consegue precisar com qual velocidade e os eventuais desdobramentos disso (em várias dimensões) à medida que a IA cada vez mais passa a ser usada nas empresas, e dos efeitos de eventuais medidas de contenção no seu desenvolvimento e uso.
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