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Acordo de Livre Comércio Mercosul– União Europeia: Algumas implicações em termos de Indústria 4.0

22/07/2019

O que é o acordo?

Assinado em 28/06/19, trata-se de um amplo acordo comercial iniciado há cerca de 20 anos que envolve vários aspectos tarifários e não tarifários entre os 4 países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - a Venezuela está suspensa desde 2016) e os 28 países da União Europeia.

Portanto, é importante frisar que o acordo é com o Mercosul e não apenas com o Brasil!

Igualmente importante frisar que o que ocorreu foi o fim das negociações e o anúncio político, e não a entrada em vigor do Acordo !

Os próximos passos do Acordo são:

  • aprovações separadas nos parlamentos de cada País envolvido. No Brasil, isso significa Câmara dos Deputados e Senado. Na UE esse tipo de acordo costuma levar de 7 meses a 3 anos até sua aprovação.
  • A expectativa do governo é que o processo demore cerca de 2,5 anos: 1 ano para análise jurídica e mais 1,5 ano para apreciação no Congresso.
  • Não há prazo limite para as aprovações.
  • Há etapas de implantação & cronograma de negociações. A próxima rodada está prevista para a semana de 6 a 10 de novembro, em Brasília.
  • O Acordo pode ser revisto ou mesmo cancelado em função de questões ambientais e trabalhistas no Brasil.

 


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O Acordo cobre 22 aspectos:



Um resumo oficial geral completo do Acordo pode ser encontrado no seguinte link do Itamaraty:

http://www.itamaraty.gov.br/images/2019/2019_07_03_-_Resumo_Acordo_Mercosul_UE.pdf

Tarifas atuais de Importação que deixarão de ser cobradas pelo Mercosul:carros (35%);

  • maquinário (de 14% a 20%);
  • químicos (até 18%);
  • vestuário (até 35%);
  • farmacêuticos (até 14%);
  • sapatos de couro (até 35%);
  • têxteis (até 35%);
  • chocolates (20%);
  • vinhos (27%);
  • bebidas não alcoólicas (de 20% a 35%) e produtos lácteos, inclusive queijos (28%).

 

Por outro lado, haverá uma abertura completa de mercados em outras dimensões:

  • Mercado será aberto para empresas do Mercosul e da União Europeia.
  • Acesso a concorrência em licitações públicas dentro de padrões internacionais de regras, transparência e práticas anticorrupção. 
  • Acesso ao mercado de tecnologia da informação, telecomunicações e transportes. 
  • Pequenas empresas: construção de plataforma on-line de acesso facilitado a todas as informações de editais, licitações, etc.

 

Setores com maior potencial de benefícios:

  • Do lado Europeu: Principalmente produtos industriais, como veículos e peças, máquinas, produtos químicos, farmacêuticos, têxteis e calçados.
  • Do lado Do Mercosul: Principalmente o agroindustrial e pesca.

 

Algumas frases

  • O acordo cria um senso de urgência para que a indústria automobilística brasileira busque competitividade e tenha produtos para atender o consumidor europeu. As empresas precisam desenvolver planejamento estratégico para as exportações e trabalhar com o governo num tripé que envolva crédito para exportação, logística e questão tributária”.

  • Embora o acordo pleno se dará ao longo de 15 anos, desde já a indústria local precisa adequar planos de investimento antes pensados basicamente para atender ao mercado regional: Teremos de transformar a exportação em necessidade, pois a competitividade será questão de sobrevivência”.

  • O ponto principal é que temos tempo para nos preparar. Temos a missão de sermos competitivos nesse período e temos uma data marcada”.

  • A questão já não é mais se as empresas devem ou não avançar para a Indústria 4.0, mas sim como devem fazê-lo”.

 

O Mercado BRASIL - UE

O Comércio entre o Brasil e a UE em 2018 foi de 122 bilhões de euros =~ 520 bi R$, sendo 88 bilhões em produtos e 34 bilhões em serviços, com uma geração de empregos total de quase 1,3 milhões de pessoas.

A UE é o maior investidor estrangeiro no Mercosul, com investimento de US$ 433 bilhões em 2017, sendo o Brasil o maior destino.  Além disto, A UE é o maior importador mundial de serviços, com valores que superam os US$ 900 bilhões anuais!

 

 

Todas as informações acima citadas e todos os gráficos foram extraídos e compilados dos seguintes links:

 

O Acordo Mercosul/Brasil e EU – Ameaças ou Oportunidades ?

Em termos de mercado para Indústria 4.0, há oportunidades de todos os lados. Isso porque, se exportam, as empresas precisam ser eficientes, etc. no “processo” todo; ou seja, há um grande mercado para soluções & serviços 4.0. E, se importam, precisam ser igualmente eficientes, etc. no “processo” todo para manufaturar, montar, distribuir, etc., o que foi importado, criando-se também um grande mercado para soluções e serviços 4.0.

Segundo a Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII), soluções de Indústria 4.0 têm o potencial de gerar impactos de US$ 15 trilhões em termos de PIB nos próximos 15 anos no Brasil.

 

Impactos do Acordo BRASIL - UE

O Acordo impacta tanto as empresas produtoras em geral em si no Brasil como aquelas que provêm soluções para Indústrias 4.0. Portanto:

  • Em que medida as indústrias do Brasil (principalmente as PMEs) podem se beneficiar ou serem afetadas pelo Acordo  ?
  • Em que medida as empresas provedoras de soluções e serviços para Indústria 4.0 sediadas no Brasil (principalmente as PMEs) podem se beneficiar ou serem afetadas pelo Acordo  ?

Nesse sentido:

  • O que devem fazer para se prepararem para entrar e para competirem no mercado europeu?
  • O que devem fazer para se prepararem para competir com as empresas europeias no mercado brasileiro?

Todavia, não basta estar apenas “ciente” do Acordo. Há que se refletir, mas também agir para se planejar sobre como o Acordo poderá impactar cada empresa. E o problema não é apenas no Brasil, mas também na EU, onde a maior parte das empresas são também PMEs. Em pesquisa de 2015 junto a empresários europeus, a maior parte afirma estar ciente, preocupada, etc., com o Acordo, mas na prática pouco tem feito para se prepararem efetivamente:

Para se fazer uma análise mais apurada dos impactos gerais do Acordo optou-se por uma técnica clássica e simples: análise SWOT (Strengths (Forças), Weaknesses (Fraquezas), Opportunities (Oportunidades), Threats (Ameaças)). A análise SWOT abaixo tenta averiguar os impactos do Acordo considerando essas quatro perspectivas bem como considera o lado das empresas gerais do Brasil e das provedoras de soluções e serviços de Indústria 4.0. Trata-se, todavia, de uma análise preliminar e bastante genérica.

 

SWOT básico para as empresas em geral no Brasil

Forças

  • Conhecimento do mercado.
  • Várias empresas com bons produtos e serviços bem ajustados ao perfil e cultura do consumidor brasileiro e parcialmente dos do Mercosul.
  • Boa base estabelecida de clientes.
  • Relações consolidadas de negócios com grandes empresas.

Fraquezas

  • Baixo nível de inovação das empresas, e muito poucas com reais grandes diferenciais em relação a soluções estrangeiras.
  • Baixo nível de adoção de modernas tecnologias, como as associadas à Indústria 4.0.
  • Maior parte das empresas são micro e pequenas, com limitações várias para investir em novos e bons produtos inovadores & competitivos.
  • Maior parte das PMEs pouco integradas a plataformas B2B e B2C assim como às grandes cadeias de valor nacionais e internacionais.
  • Baixo nível de certificação de qualidade (NBR, ISO, ...)

Oportunidades

  • Há várias linhas de financiamento regionais e nacionais de apoio à modernização das empresas (por exemplo, para investimento em Inovação e em Indústria 4.0) e há um tempo razoável ainda para implementação de projetos de melhoria até que o Acordo entre em vigor.
  • Já há inúmeras soluções de Indústria 4.0 no mercado brasileiro a custos extremamente viáveis e de não complexa implantação. Agora é o momento !
  • Empresas europeias possivelmente terão dificuldades de entrar no mercado de PMEs (custo), e possivelmente terão que fazer parcerias de negócios com empresas locais 🡺 parceiros; não inimigos (copetição).
  • Algumas empresas do Brasil atuam em setores onde o Brasil tem grande know-how, e.g. agronegócio, podendo acessar mais facilmente o gigante mercado da UE.
  • Pressão por expansão do portfólio de produtos e serviços das empresas, forçando uma maior colaboração e inovação entre empresas e cadeias de valor.
  • Algumas universidades e sistema de inovação em geral muito receptivos a trabalhar junto com as empresas.

Ameaças

  • Aumento da concorrência: Empresas grandes e PMEs europeias vão estabelecer outro patamar de inovação, integração, modelo de negócios, produtos e qualidade, onde talvez várias empresas do Brasil não consigam acompanhar se não começarem a investir já em tecnologias mais modernas, como as ligadas à Indústria 4.0.
  • Empresas da UE vão precisar de mão de obra qualificada e talvez ofereçam salários muito mais altos, exigindo uma política de retenção de talentos muito mais agressiva por parte das empresas do Brasil .
  • Pouca oferta de mão de obra qualificada em TI, engenharias, etc.
  • Universidades em geral pouco preparadas para trabalhar com as empresas.
  • PMEs brasileiras pouco receptivas e ágeis na introdução de novas tecnologias a fim de se tornarem mais competitivas e inovadoras.
  • Empresas bem estabelecidas serem compradas por grupos europeus (assumindo que isto não seja um objetivo estratégico delas ...).

 

SWOT básico para as empresas provedoras de soluções e serviços de Indústria 4.0 no Brasil

Forças

  • Conhecimento do mercado.
  • Várias empresas com bons produtos e serviços bem ajustados ao perfil e cultura do consumidor brasileiro e parcialmente dos do Mercosul.
  • Boa base estabelecida de clientes.
  • Relações consolidadas de negócios com grandes empresas.
  • Ecossistema pujante e crescente em muitas regiões do Brasil 🡺 grande cultura de inovação.

Fraquezas

  • Apenas razoável nível de inovação das empresas provedoras, e poucas com reais grandes diferenciais (frente a soluções estrangeiras).
  • Maior parte das empresas provedoras são micro e pequenas, com limitações várias para investir em novos e bons produtos inovadores & competitivos.
  • Indústria 4.0 impacta as empresas em várias dimensões, mas há vários nichos não cobertos e que podem ser aproveitados pelas empresas da UE.

Oportunidades

  • Empresas sediadas no Brasil e Mercosul são um imenso mercado de PMEs, em Manufatura e em inúmeros outros setores com demandas Indústria 4.0 e estarão pressionadas para investir devido ao Acordo.
  • Empresas europeias de automação possivelmente terão dificuldades de entrar no mercado de PMEs (custo), e possivelmente terão que fazer parcerias de negócios com provedores locais (p. ex., empresas provedoras, que conhecem o mercado e “cultura” nacional) 🡺 parceiros; não inimigos (copetição).
  • Algumas empresas provedoras atuam em setores onde o Brasil tem grande know-how, e.g. agronegócio, podendo acessar mais facilmente o gigante mercado da UE.
  • Pressão por expansão do portfólio de produtos e serviços das empresas provedoras, com uma maior colaboração e inovação entre provedores, além de integradores.
  • Indústria 4.0 não é apenas manufatura. Há um espaço enorme de soluções 4.0 para outros setores da economia que estarão pressionados pelo Acordo.
  • Algumas universidades e sistema de inovação em geral do Brasil muito receptivos a trabalhar junto com as empresas.

Ameaças

  • Aumento da concorrência: Empresas de automação da UE vão estabelecer outro patamar de inovação, integração, modelo de negócios, produtos e qualidade, onde talvez várias empresas provedoras não consigam acompanhar.
  • Empresas da UE vão precisar de mão de obra qualificada e talvez ofereçam salários muito mais altos, exigindo uma política de retenção de talentos muito mais agressiva por parte da empresas provedoras.
  • Pouca oferta de mão de obra qualificada em TI, engenharias, etc.
  • Universidades em geral pouco preparadas para trabalhar com as empresas.
  • A necessidade das empresas se reinventarem e se tornarem mais competitivas e inovadoras vale também para as empresas provedoras.
  • Empresas provedoras muito bem estabelecidas serem compradas por grupos europeus (assumindo que isto não seja um objetivo estratégico delas ...).

 

1)  https://exame.abril.com.br/negocios/dino/mercado-de-us-15-trilhoes-industria-40-ainda-tem-pouca-adesao-no-brasil
2)  Fonte: Industry 4.0 – The State of the Nations. Research Report (2015), InfoSys.

 

Produzido por:

Ricardo J Rabelo

Professor PhD Titular do Departamento de Automação e Sistemas Coordenador do Programa Institucional de Pós-Graduação de Indústria e Serviços 4.0 da UFSC Coordenador do GSIGMA - Grupo de Pesquisas de Sistemas Inteligentes de Manufatura e Redes Colaborativas Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC) email: ricardo.rabelo@ufsc.br tel: (+48) 3721-7676


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