“Olha só esse helicóptero”, comentou um homem enquanto caminhava pelo pavilhão brasileiro na Hannover Messe 2026, em abril. “É um veículo elétrico voador”, corrigiu prontamente a funcionária do estande da Embraer. Mentalmente, completei: eVTOL - aeronave de decolagem e aterrissagem vertical elétrica, em inglês electric vertical take-off and landing.
Depois de tantas reportagens lidas e escritas sobre essa nova geração de aeronaves, vê-la de perto causava impacto. O desenho clean e futurista atraía olhares em meio aos estandes de algumas das maiores empresas brasileiras. Ali perto, ainda no pavilhão 12, estavam o estande da Vale e o palco principal do Brasil. Era impossível passar pelo pavilhão sem perceber a dimensão da presença do país, parceiro oficial da Hannover Messe naquele ano. Máquinas, produtos e demonstrações disputavam a atenção dos visitantes. As empresas de base tecnológica, porém, jogavam outro jogo.
As startups e scale-ups brasileiras dividiam um quadrante menor, com menos possibilidades de apostar em demonstrações exuberantes e grandes recursos visuais. Precisavam fazer com que a tecnologia — e, principalmente, a proposta de valor — falasse por tudo isso.
Entre os empreendedores que chegaram à Hannover Messe estavam os participantes do Brazilian Indtechs in Germany (BiG2026), programa de internacionalização que levou dez indtechs brasileiras à Alemanha para uma jornada de dez dias de aproximação com o ecossistema industrial alemão. A feira era o grande palco, mas apenas uma das etapas dessa experiência.
Não faltava entusiasmo aos empreendedores brasileiros. Para José Leandro Soares, COO da indtech Vitau Automation, a viagem traduzia uma ambição que ia além dos negócios: “A principal coisa que tenho na minha cabeça desde que saí do Brasil é: eu vou mostrar para esse pessoal que nós não somos só um país agrário, do Carnaval ou do samba. Nós somos, principalmente, o país da tecnologia”.
O documentário acompanha dez indtechs brasileiras pela Alemanha, das capacitações e rodadas de negócios aos bastidores da Hannover Messe 2026.
Da tecnologia ao mercado: onde as indtechs encontram barreiras
Mostrar a tecnologia brasileira ao mundo era parte do desafio. A outra era encontrar caminhos para transformar essa capacidade de inovação em acesso ao mercado industrial, oportunidades de negócios e crescimento.
Pesquisa da Deloitte e da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), lançada em agosto, mostra que entre os apoios considerados mais importantes pelas indtechs brasileiras para ganhar escala estão o acesso às grandes indústrias (58%), fomento e incentivo (51%), ambientes de teste (48%) e mentoria e conexões (40%).
Os dados ajudam a entender a proposta do BiG2026. Mais do que levar empresas brasileiras a uma feira internacional, o programa articula preparação, acesso a potenciais clientes e conexões com diferentes agentes do ecossistema industrial. Um trabalho que começou antes mesmo da chegada à Hannover Messe.
Antes da viagem, as empresas passaram por mentorias e diagnósticos de maturidade internacional. Parte do grupo participou do Bset, capacitação promovida pela ApexBrasil e pela Bcome.global.
Segundo Ana Luísa Brito, international business analyst da ApexBrasil, isso permitiu às empresas chegar à feira com planos de internacionalização avaliados, contatos mapeados e maior conhecimento do ecossistema europeu.
Claudio Goldbach, fundador da Bcome.global e idealizador do BiG, destaca a importância da adaptação: “A principal barreira não é o idioma, são as diferenças culturais. Na Alemanha, ressaltamos muito que a confiança se constrói com tarefas bem executadas e entregas consistentes, não apenas com relacionamento”.
Os primeiros pitches aconteceram em Frankfurt, em uma agenda no Banco do Brasil com representantes do Consulado-Geral do Brasil e da agência de desenvolvimento econômico FrankfurtRheinMain.
Em Mannheim, no Mafinex Technologiezentrum, um dos centros do ecossistema Next Mannheim, a preparação se voltou às relações de negócios. Jonas Braun, cofundador e head of sales da SaleUp, abordou nos workshops diferenças na construção de confiança e na comunicação profissional entre brasileiros e alemães.
Depois vieram as rodadas de speed dating com representantes de ABB, KSB e SAP. “Identifiquei empresas e tecnologias trabalhando em problemas de nossos clientes para os quais a ABB não possui uma solução genérica própria. Combinar nossas tecnologias pode ser muito interessante”, avaliou Jonas Kolb, head of OEM hub da ABB Motion na Alemanha.
Fiona Preisler, da Next Mannheim, responsável por mobilizar o ecossistema local para a realização de conexões qualificadas com as empresas brasileiras, destacou a maturidade das participantes, “mais de scale-ups do que de startups”.
Hannover Messe coloca inovação brasileira diante da indústria global
No dia 20 de abril a Hannover Messe abriu as portas para a indústria global. A participação brasileira na edição de 2026 reuniu mais de 140 expositores e uma delegação superior a 300 empresas, impulsionada pelo status do Brasil como país parceiro. Era comum ouvir pessoas de indtechs brasileiras recordar uma fala recorrente de Claudio Goldbach: com a chancela do Itamaraty, não representavam apenas o BiG ou suas próprias empresas, mas também o país.
Nathália D’Ávilla, CEO da M.A.I.A, havia participado da edição de 2025 do BiG, que a levou pela primeira vez à Hannover Messe como visitante. Em 2026, voltou como expositora, integrando a delegação da ApexBrasil. “Era um sonho ver as startups sendo apresentadas ali com tanto renome. E agora chegou a vez do Brasil, e nós somos o centro da feira, estamos em evidência aqui dentro e entramos de uma forma muito honrosa”, analisou.
Para as indtechs do BiG, a feira significou exposição direta a especialistas e tomadores de decisão. No primeiro dia, empresas como Quality Storm, Hedro, Melvin, Vitau Automation e Digimet participaram de pitches avaliados por especialistas internacionais. Em outro momento, a Quality Storm apresentou uma solução baseada em inteligência artificial para um desafio de inspeção de pintura proposto pela Embraer. A empresa segue em negociação com a multinacional brasileira desde então.
Eymard Barroso, CIO da Melvin, também vivia sua primeira experiência: “A Melvin nunca tinha exposto em uma feira internacional. Poder vir para cá e observar que as pessoas já vieram ao estande procurando diretamente as nossas soluções, querendo conversar sobre dores reais, traz o sentimento de dever cumprido e de que estamos evoluindo para atender não só o mercado nacional, mas o global”.
Durante uma caminhada pelo pavilhão 11 da Hannover Messe, Claudio Goldbach recuperou a história da feira, criada em 1947, no pós-guerra, quando a Alemanha precisava reconstruir sua infraestrutura industrial. Desde então, o evento acompanhou transformações da indústria, da mecânica à eletroeletrônica, até os desafios atuais da digitalização.
Para ele, a necessidade de inovar com recursos limitados contribuiu para desenvolver no Brasil uma capacidade de criar tecnologias flexíveis e de rápida adoção: “Quando saímos da nossa geografia e vivemos esse contraste, o mercado internacional percebe nosso valor: não somos apenas o Brasil da soja, somos o Brasil da soja e da inovação.”
A experiência das empresas na feira evidencia a importância de aproximar a tecnologia brasileira de potenciais clientes industriais. Mas a visibilidade, por si só, não garante negócios.
Segundo a pesquisa da Deloitte e da FIEMG, 75% das indtechs participam de hubs de inovação, buscando acesso a decisores, validação de soluções, canais de distribuição e apoio à expansão nacional e internacional.
Marcos Dillenburg, até então CEO da Novus Automation, lembrou que, nos anos 1990, a empresa buscava oportunidades internacionais praticamente por conta própria, em um contexto no qual ainda não existia uma rede estruturada de apoio à internacionalização. Hoje, vê espaço para companhias experientes atuarem como uma espécie de “irmão mais velho” das startups, oferecendo apoio técnico e reputacional para abrir portas que seriam mais difíceis de acessar isoladamente.
Nenhuma indtech internacionaliza sozinha
O BiG mobilizou agentes com funções complementares: empresas industriais, hubs, especialistas, órgãos públicos e instituições de fomento. No encerramento da missão, Goldbach resumiu essa característica: “O BiG é um programa impossível de ser feito sozinho”.
O idealizador citou MRE, ApexBrasil, consulados, Fapes, Fundação Araucária, Banco do Brasil e parceiros de mídia, como o Portal Indústria 4.0, entre os integrantes dessa rede.
A chancela do Itamaraty, por meio do Programa Diplomacia da Inovação (PDI), também integra essa articulação. Rafael Leal, chefe da Divisão de Ciência, Tecnologia e Inovação do Itamaraty à época, explicou seu papel na projeção internacional do ecossistema brasileiro em conversa com Goldbach.
Assista à conversa sobre o Programa Diplomacia da Inovação.
Entre os apoiadores institucionais, a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) já participou de cinco programas de internacionalização da Bcome.global, três deles dentro do BSW — BiG2025, BitS2025 e BretA2026 —, além de integrar o BiG2026 como entidade convidada.
Juão Vitor Silva, Assessor Especial da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti-ES), destacou a importância da atuação dos estados no fomento à internacionalização.
Elton Moura, diretor de Inovação da Fapes, relatou a receptividade às empresas brasileiras durante as agendas na Alemanha e a perspectiva de combinar a “criatividade brasileira” com a “parte metodológica alemã”.
Conexões voltam para o Brasil
O efeito de uma missão não se mede apenas pelos contatos feitos no exterior. Um exemplo apareceu nos corredores da Hannover Messe: o sensor da Hedro, participante de edições anteriores do BiG, estava presente em quatro estandes — no da empresa, no da Melvin e em dois espaços da Novus. “Depois de três anos do BiG2023, estar de volta exposto em quatro frentes com essa tecnologia é incrível”, celebrou Cássio Barbosa, CIO da Harbor/Hedro.
A relação entre as três empresas brasileiras não se limitava à exposição conjunta. O programa registra uma parceria consolidada entre Novus, Hedro e Melvin voltada ao desenvolvimento da inovação nos mercados nacional e internacional.
O movimento também alcança as instituições de fomento. Fernando Henrique Lermen, coordenador de Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, participou do BiG2026 a convite da Fapes para conhecer o modelo e avaliar iniciativas semelhantes com empresas mais maduras. Segundo ele, ainda faltam, em alguns ambientes brasileiros, elos como aceleradoras, venture capital e investidores-anjo.
Moura relatou ainda que uma aproximação com o Instituto Fraunhofer, construída em missão anterior, resultou em um contrato relacionado a energias renováveis.
São desdobramentos diferentes: empresas brasileiras que passam a colaborar, instituições que compartilham modelos de fomento e relações internacionais que podem avançar para cooperação. Não significa que o programa tenha eliminado as barreiras identificadas pela pesquisa da Deloitte e FIEMG, mas são casos que mostram como uma rede de apoio pode gerar novas conexões.
A agenda na Alemanha terminou, mas o trabalho de conexão continuou no Brasil em encontros promovidos pelo BiG2026 nos meses seguintes. O programa ajuda a visualizar esse efeito em cadeia: o ecossistema viabiliza a internacionalização das indtechs e as relações construídas durante a experiência podem, por sua vez, fortalecer o próprio ecossistema brasileiro e ampliar suas conexões com as redes globais de inovação industrial.
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