A maior parte dos dados gerados pela indústria permanece sem uso, limitando ganhos de eficiência, inovação e competitividade. Durante webinar promovido pelo Comitê Open Industry da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), Néstor Ayala, codiretor do Núcleo de Engenharia Organizacional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NEO-UFRGS), afirmou que aproximadamente 98% dos dados industriais gerados atualmente não são explorados. Como resposta a esse desafio, a ABINC e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) apresentaram os resultados do Demonstrador Federado de Espaço de Dados Industriais, iniciativa levada à Hannover Messe 2026 para validar casos de uso de compartilhamento seguro e soberano de dados entre empresas brasileiras e europeias.
Segundo Ayala, a pesquisa conduzida pelo NEO-UFRGS em parceria com a ABDI, a pedido do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), ouviu mais de 200 empresas e identificou quatro perfis de maturidade em relação ao compartilhamento de dados: organizações que já geram valor com essas informações, mas utilizam soluções próprias; empresas que reconhecem esse potencial, porém têm receio de compartilhar dados; companhias que enxergam oportunidades, mas ainda não possuem capacidade técnica ou financeira para implantar plataformas; e empresas que ainda demandam ações de letramento para compreender o valor econômico dos dados.
Ao apresentar o demonstrador, Maurício Finotti, líder do Comitê Open Industry da ABINC e CEO da I-SENSI, explicou que o Data Space funciona como um ecossistema digital seguro e soberano, no qual cada empresa mantém o controle sobre seus dados, definindo quais informações serão compartilhadas, com quem e por quanto tempo. O compartilhamento ocorre por meio de conectores que extraem apenas os dados autorizados e validam contratos e políticas de uso antes de cada transação, sem necessidade de centralizar as informações.
Apresentado durante a Hannover Messe 2026, quando o Brasil participou como país parceiro oficial, o demonstrador reuniu empresas brasileiras e europeias em torno de centros de usinagem. O ambiente coletou dados de usinagem, consumo de energia, indicadores de parada e informações derivadas de sistemas de Manufacturing Execution System (MES), utilizando o padrão Open Platform Communications Unified Architecture (OPC UA) e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Data Act da União Europeia.
Entre os casos de uso apresentados estão o compartilhamento seguro de dados industriais, análises de utilização de ativos — que identificaram média de 85% de utilização e 42% de ociosidade —, a identificação dos principais motivos de parada e o uso dos dados como fonte qualificada para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Finotti destacou ainda que uma única prensa industrial pode gerar cerca de 1,84 GB de dados por ano, volume que cresce rapidamente em plantas com dezenas ou centenas de equipamentos.
Ao apresentar a experiência europeia, Johannes Klingberg, da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), destacou que a interoperabilidade e a infraestrutura de compartilhamento de dados se tornaram fatores estratégicos para a competitividade nacional em inteligência artificial. Segundo ele, após anos de desenvolvimento de projetos-piloto, a Europa passou a tratar os dados como um recurso econômico, reduzindo barreiras regulatórias e direcionando esforços para aplicações industriais em escala.
Klingberg e Finotti também destacaram o papel dos espaços de dados para atender às exigências do Passaporte Digital de Produto (Digital Product Passport – DPP), permitindo organizar a governança das informações de rastreabilidade ao longo das cadeias produtivas e diferenciando dados públicos, regulatórios e restritos sem comprometer a soberania das empresas sobre suas informações.
Na abertura do webinar, Flávio Maeda, vice-presidente da ABINC, afirmou que a economia de dados representa uma evolução natural da Internet das Coisas (Internet of Things – IoT) e uma nova economia baseada no uso estratégico das informações. Segundo ele, o Comitê Open Industry atua em frentes relacionadas à tecnologia, regulação e modelos de negócio para criar as bases de um ecossistema de compartilhamento de dados voltado à realidade da indústria brasileira.
Ao encerrar a apresentação, Finotti apresentou o roadmap da iniciativa, estruturado em duas etapas: a validação do demonstrador na Hannover Messe e a expansão permanente da iniciativa no Brasil, alinhada à linha 4 do Programa Mover. A proposta é ampliar a adoção dos espaços de dados industriais em novas cadeias produtivas, tendo como princípio um modelo de colaboração baseado no compartilhamento seguro e soberano de dados.
Confira o webinar completo abaixo:
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