Muito se tem refletido sobre o papel da inteligência humana diante da aceleração tecnológica. Quando o foco é manufatura, uma pesquisa de novembro de 2025 da Deloitte Research Center for Energy & Industrials prevê que 2026 será o ano da maturidade para a IA no setor. Contudo, outro dado que chama a atenção não é o poder do algoritmo, mas a centralidade das pessoas: mesmo com a redefinição de funções, a força de trabalho humana será a prioridade nos próximos anos.
“Espera-se que mais de 81% das horas de tarefas na manufatura permaneçam conduzidas por humanos”, aponta o estudo. A tecnologia deve elevar o nível do profissional, transformando o operador, historicamente limitado à execução técnica, em um analista estratégico que efetivamente lidera o processo digital.
O Canal Indústria 4.0 entrevistou Mariana Santos, CEO da Eigendauer, especialista em integridade de superfície e à frente de soluções que unem engenharia de precisão e modelos digitais. Um dos grandes desafios da indústria, para ela, é a perda de conhecimento técnico especializado, muitas vezes passado de "pai para filho". Quando esses especialistas se aposentam, o saber consolidado corre o risco de desaparecer.
Esse é um dos motivos pelo qual o software MIP da Eigendauer atua como um "cofre" desse conhecimento, digitalizando processos e cálculos de engenharia que seriam impossíveis de um operador decorar ou realizar manualmente com a mesma precisão, facilitando o onboarding de novos talentos, que já iniciam com o suporte de uma base de dados robusta.
Construir, comprar ou alugar o conhecimento na manufatura?
Para entender o tamanho desse desafio, é preciso olhar para onde o dinheiro está indo. A pesquisa da Deloitte com 600 executivos revelou que 80% deles planejam destinar 20% ou mais de seus orçamentos para a manufatura inteligente. Eles enxergam tecnologias como hardware de automação, análise de dados e computação em nuvem como os principais motores de competitividade dos próximos três anos, buscando aumento de produção e maior produtividade.
No entanto, comprar a tecnologia é a parte fácil; o verdadeiro gargalo é quem vai operá-la. É por isso que o relatório da Deloitte sugere que as empresas adotem um modelo adaptativo de força de trabalho: construir (treinar internamente), comprar (contratar talentos prontos) ou alugar (usar parceiros especializados) para suprir necessidades de competências.
Segundo Mariana, a escolha depende da situação específica de cada indústria. Contudo, ela ressalta que apenas o treinamento não substitui a necessidade de tecnologia avançada, pois a complexidade dos novos processos exige um alcance analítico que vai além da capacidade humana isolada. “O alcance analítico de um software (como o MIP) consegue processar variáveis e cálculos que um humano, por mais treinado que seja, não conseguiria realizar manualmente com a mesma precisão e velocidade”, diz a CEO da Eigendauer.
A provocação que fica é que, na manufatura de 2026, o saber humano já não caminha sozinho. Se a complexidade dos processos exige uma precisão que desafia nossos limites biológicos, a tecnologia deixa de ser uma ferramenta para se tornar a extensão necessária da inteligência humana. Para Mariana, o desafio do gestor atual não é apenas suprir uma lacuna de competência, mas garantir que sua equipe tenha o suporte analítico para transformar dados brutos em decisões estratégicas, algo que nenhum algoritmo, por si só, consegue validar sem o peso da experiência humana.
Dessa forma, a responsabilidade do líder evolui: ele deixa de gerenciar apenas mãos ou apenas softwares para orquestrar uma inteligência híbrida, onde a precisão absoluta da máquina é finalmente traduzida em valor real pelo discernimento e pela subjetividade humana.
Linguagem da pessoa e a linguagem do sistema
O futuro habilitado por IA prevê uma "linguagem dupla" entre homem e sistema. A pesquisa aponta que o crescimento impulsionado por IA, investimentos em semicondutores e políticas de apoio podem trazer novas oportunidades. Ao mesmo tempo, desenvolver uma força de trabalho qualificada e priorizar agilidade podem ser essenciais para obter bons resultados na manufatura em 2026.
Mariana utiliza a analogia de que a tecnologia atua como um suporte que oferece segurança de informação e otimização. O modelo dominante não é o da substituição total, mas o de uma parceria onde a máquina provê a inteligência de dados (como o gêmeo digital que simula a cadeia de fabricação) e o humano atuando de forma estratégica para conduzir esses recursos ao sucesso da operação.
*Imagem de capa: Depositphotos.com
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