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Canal Indústria 4.0

RPA, Agents e Agentic AI: a nova espinha dorsal da automação industrial

Por: Ederson Almeida      Exclusiva

A automação industrial sempre foi um espelho do espírito do seu tempo. O vapor carregou a força dos músculos humanos; a eletricidade distribuiu trabalho em escala; a automação eletromecânica substituiu movimentos repetitivos; e a digitalização transformou dados em instruções precisas. Agora, porém, vivemos um momento em que a automação deixa de ser apenas uma extensão da força ou da lógica humana. Ela passa a tomar decisões. Entende o que queremos, aprende com o que fazemos e até antecipa o que pode acontecer. Nesse movimento, três camadas tecnológicas formam uma linha evolutiva nítida: o RPA, os Agents e a Agentic AI.

O RPA representa a era da automação determinística. Ele executa exatamente o que foi programado, sem hesitação — e sem improviso. É como um colaborador disciplinado que não questiona o processo: cumpre cada etapa, transfere dados, preenche formulários, integra sistemas legados e mantém o fluxo em funcionamento. Mas justamente por ser tão rígido, carrega consigo uma fragilidade estrutural. Uma mudança mínima na interface pode desmontar todo o fluxo. E em ambientes industriais, onde exceções, variações e imprevistos são regra, esse modelo mostra seus limites rapidamente. O Tech Navigator da Infosys classifica essa fase como o primeiro nível da automação: tudo depende de regras fixas; nada é adaptativo; a máquina faz, mas não pensa (Infosys, 2025) .

Essa limitação abriu espaço para algo mais inteligente. É aqui que entram os Agents, que marcam a transição da automação que apenas executa para a automação que entende. Um agent já não é apenas um executor; passa a ser um colaborador digital capaz de interpretar uma demanda, buscar informações, conectar sistemas, tomar decisões simples e agir com relativa autonomia. A KPMG descreve os agents como sistemas digitais que, combinando raciocínio derivado de LLMs, planejamento, orquestração e governança, conseguem perseguir objetivos organizacionais com independência — desde que supervisionados (KPMG, 2025) . É uma mudança significativa: já não estamos apenas automatizando tarefas, mas sim automatizando intenções.


Esse salto já começa a redefinir as operações industriais. Se o RPA conseguia atualizar ordens de produção, os agents conseguem analisar logs de máquinas, interpretar sinais de falha, priorizar chamados de manutenção, contextualizar dados com base no histórico e até redigir relatórios completos. É emblemático o caso da Amazon, que utilizou agentes autônomos para modernizar mais de dez mil aplicações Java, economizando o equivalente a 4.500 anos de trabalho humano — algo impensável com automações tradicionais (Amazon, 2024) . Esse nível de impacto demonstra que, ao contrário do RPA, os agents são capazes de navegar por ambientes mais variáveis, especialmente quando amparados por uma arquitetura de governança sólida, como a que a Microsoft desenvolveu para o ecossistema Microsoft 365 Copilot (Microsoft, 2024).

Mas é com a Agentic AI que a automação dá um salto filosófico. Aqui, não falamos mais de sistemas que executam passos; falamos de sistemas que formulam caminhos. A Agentic AI introduz a capacidade de planejar, refletir sobre suas próprias ações, aprender com erros, adaptar estratégias e coordenar múltiplos agentes simultaneamente. É a automação assumindo um papel cognitivo, não apenas operacional. A Infosys descreve essa fase como o quarto nível da evolução, quando agentes deixam de seguir instruções lineares e passam a decompor metas, testar hipóteses e refinar suas ações com base em ciclos de raciocínio estruturado (Infosys, 2025) . A Accenture vai mais longe e afirma que estamos criando verdadeiros “cognitive digital brains”, sistemas capazes de absorver conhecimento organizacional, conectar dados dispersos e atuar como uma espécie de sistema nervoso digital das empresas (Accenture, 2025).

Esse movimento tem consequências diretas para a indústria. Na manufatura, por exemplo, o RPA coleta dados; os agents analisam e priorizam; a Agentic AI replaneja toda a operação diante de um imprevisto, otimizando fluxos, ajustando tempos de máquina e reorganizando as ordens de produção. Na manutenção, a diferença é ainda mais expressiva: o RPA emite relatórios; os agents correlacionam sinais de vibração, de temperatura e de histórico; a Agentic AI formula cenários de falha, estima riscos, sugere intervenções e antecipa degradações. Na segurança do trabalho, onde normas, evidências e recomendações exigem interpretação, agentes já conseguem identificar padrões de não conformidade, sugerir medidas e cruzar dados com essas normas. A Agentic AI vai além e produz análises de risco completas, interpretando imagens, avaliando contexto operacional e aprendendo com inspeções anteriores — algo extremamente alinhado com a agenda contemporânea de SST orientada por inteligência (Someh et al., 2022).

Na cadeia de suprimentos, a transformação é igualmente profunda. Se o RPA atualiza status e integra sistemas, os agents já conseguem detectar anomalias, reorganizar cargas e sugerir alternativas logísticas. A Agentic AI fecha o ciclo ao replanejar rotas, antecipar rupturas, negociar automaticamente com fornecedores em ambientes controlados e orquestrar todo o fluxo, do pedido à entrega. Não se trata mais de otimizar tarefas isoladas; trata-se de redesenhar operações como sistemas vivos. A McKinsey chama isso de superação do “paradoxo da GenAI”: muitas empresas testam soluções generativas, mas poucas extraem valor real. A diferença aparece exatamente quando a automação deixa de ser horizontal (assistentes genéricos) e passa a ser vertical (agents orientados a processos completos) (McKinsey, 2025).

A mudança, no entanto, não é apenas técnica. Para que agentes autônomos operem de forma segura e confiável, é preciso construir uma arquitetura robusta de dados, governança, observabilidade e supervisão humana. Todos os relatórios analisados — Microsoft, KPMG, Accenture, Infosys — convergem no mesmo ponto: a Agentic AI não dispensa pessoas; ela amplia a capacidade humana. Exige profissionais qualificados, cultura de experimentação, ambiente de testes controlado, métricas claras e limites explícitos para a autonomia. Em outras palavras, quanto mais inteligente o agente, mais inteligente deve ser a governança.

O que estamos testemunhando é o nascimento de uma nova espinha dorsal da automação industrial. O RPA continuará existindo como base para tarefas repetitivas. Os agentes serão responsáveis por conectar sistemas, interpretar demandas e executar ações complexas com autonomia controlada. E a Agentic AI — ainda em consolidação, mas acelerando rapidamente — será a camada cognitiva capaz de antecipar cenários, otimizar decisões e reconfigurar operações inteiras em tempo real. A automação não desaparece; muda de natureza. Deixa de ser digital e passa a ser cognitiva.

Esse movimento não é apenas uma inovação tecnológica: é uma mudança estrutural no modo como as indústrias serão operadas, auditadas, mantidas e protegidas. Quem compreender essa transição primeiro — e souber aplicá-la com responsabilidade e visão estratégica — vai liderar a próxima década da competitividade industrial.

Referências

  • Accenture (2025). Technology Vision 2025 – AI: A Declaration of Autonomy.
  • Infosys (2025). Tech Navigator: Agentic Enterprise AI Playbook.
  • KPMG (2025). The Agentic AI Advantage.
  • Microsoft (2024–2025). Agent Governance Whitepaper – Administering and Governing Agents.
  • AWS (2024–2025). Case Studies: Amazon Q Developer, Rocket Companies, Genentech.
  • Someh, I., Wixom, B., Beath, C., & Zutavern, A. (2022). Building an Artificial Intelligence Explanation Capability. MIS Quarterly Executive.
*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Ederson Almeida

Ederson Almeida

Inovação e Inteligência Artificial

Sou Empreendedor, CEO da empresa GAUTICA, Professor e Desenvolvedor de Software com mais de 20 anos de experiência no setor, especializando-me em Inteligência Artificial e Transformação Digital. Atualmente, estou avançando em meu doutorado, focando em utilizar a IA para melhorar a segurança no local de trabalho.

Minha trajetória acadêmica é marcada pelo compromisso com o ensino e a inovação. Ministrei aulas no Mestrado Profissional em Engenharia de Produção, capacitei centenas de programadores e leciono programação avançada no CETEC. Como mentor de inovação, orientei inúmeros jovens em projetos de empreendedorismo através da Junior Achievement, impactando significativamente suas carreiras.

Atuo como palestrante e consultor em IA e transformação digital, impulsionando iniciativas estratégicas que integram tecnologia e objetivos empresariais. A minha segunda empresa, Edertec Academy destaca meu compromisso com a educação e capacitação de profissionais com habilidades de ponta, preparando-os para o cenário digital em evolução.

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