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Inteligência industrial começa pela organização dos dados

A construção da base para uma futura plataforma de apoio à decisão

Por: Éderson de Almeida Pedro      Exclusiva

Uma plataforma de inteligência industrial precisa oferecer condições para compreender o contexto em que as organizações operam. Informações sobre produção, preços, emprego e comércio exterior podem contribuir para essa compreensão, desde que seja possível conhecer sua origem, acompanhar suas atualizações e reconhecer seus limites. A capacidade de responder a perguntas de gestão começa, portanto, nas decisões sobre como obter e organizar os dados que sustentarão as respostas.

É com essa perspectiva que pretendo desenvolver uma plataforma de inteligência industrial, aproximando uma necessidade empresarial de uma trajetória de pesquisa científica. Este artigo inaugura uma série que acompanhará sua evolução, começando pelo levantamento das fontes e pela estratégia de coleta, armazenamento e catalogação. A exploração dos dados e a avaliação das aplicações de IA serão tratadas à medida que o projeto avançar.

A proposta inicial é construir uma base que possa ser atualizada, compreendida e reutilizada. Um arquivo baixado sem documentação pode se tornar difícil de interpretar poucos meses depois. Já um conjunto preservado, com sua fonte, período de referência e histórico de versões, permite que diferentes pessoas retomem o trabalho, examinem suas escolhas e desenvolvam novas aplicações.

O levantamento preliminar identificou caminhos concretos para começar. O IBGE oferece uma API de dados agregados que alimenta o SIDRA, permitindo consultar informações das pesquisas disponibilizadas no sistema. O MDIC publica arquivos do Comex Stat em formato CSV, acompanhados de layouts e tabelas de correlação. O Ministério do Trabalho e Emprego disponibiliza microdados não identificados da RAIS e do Novo Caged, com orientações para sua obtenção. Essas fontes demonstram a existência de matéria-prima informacional para o projeto; sua adequação a cada uso ainda precisará ser verificada. 


A primeira decisão será estabelecer um recorte. Para uma plataforma voltada à indústria brasileira, a produção, os preços, o comércio exterior e o emprego constituem um ponto de partida coerente. Outros temas poderão ser incorporados à medida que os requisitos da plataforma forem definidos. Essa expansão deverá considerar o valor esperado de cada fonte e o trabalho necessário para mantê-la.

O catálogo inicial identificará, para cada conjunto, o órgão responsável, o conteúdo disponível, a abrangência territorial, a cobertura histórica, a frequência de atualização e a forma de acesso. Também registrará o nível de detalhamento e as condições de reutilização. A presença de uma informação em um painel público deve ser distinguida da disponibilidade de arquivos ou serviços adequados à coleta automatizada.

A seleção considerará ainda a continuidade das séries, a documentação e a existência de classificações que permitam relacionar os dados. Uma base nacional mensal e outra base municipal anual podem contribuir para o mesmo projeto, mas desempenham funções diferentes. Conhecer essas diferenças desde o levantamento evitará expectativas de integração que as fontes não conseguem atender.

A coleta deverá ser concebida como um processo repetível e verificável. No caso de arquivos, será necessário identificar as versões publicadas e registrar os downloads realizados. Nas APIs, deverão ser preservados os parâmetros da consulta, os filtros, a paginação, quando existente, e as respostas recebidas. Para microdados transferidos por outros protocolos, será igualmente importante manter os layouts e a documentação correspondentes.

O Comex Stat ilustra essa necessidade: seus arquivos utilizam códigos para produtos, países e outras dimensões, cuja interpretação depende das tabelas de correspondência. A documentação do MDIC também alerta para o tamanho dos arquivos e para o risco de perda de informações ao abri-los em ferramentas inadequadas. A escolha do meio de coleta e processamento deverá respeitar essas características. 

Propomos manter um registro de cada execução, incluindo a fonte consultada, o horário, o período solicitado, o resultado e eventuais falhas. Uma verificação inicial poderá confirmar se o arquivo está legível, contém os campos esperados e corresponde ao período informado. Também será possível registrar uma identificação digital do conteúdo, como um hash, para detectar alterações nos arquivos.

Essa rotina deverá distinguir a data de referência do dado, a data de publicação e a data de coleta. Caso uma instituição revise uma série, o projeto precisará reconhecer a nova versão e preservar informações suficientes para explicar quais dados estavam disponíveis em cada momento. Atualizar a base exigirá uma política de versões.

Big Data oferece uma referência para pensar a evolução da infraestrutura. O NIST relaciona o conceito a conjuntos cujas características de volume, variedade, velocidade ou variabilidade exigem arquiteturas escaláveis de armazenamento e de processamento. A definição destaca um problema de capacidade e de organização.

No projeto proposto, a variedade de formatos e a atualização das fontes já são questões de engenharia. A necessidade de processamento distribuído ou de uma infraestrutura em grande escala dependerá do volume efetivamente incorporado e dos requisitos de uso. A arquitetura inicial poderá ser simples, desde que permita crescer e preserve os registros necessários.

O dimensionamento deverá considerar o armazenamento, o processamento, a transferência, a manutenção e a recuperação dos dados. Uma estratégia progressiva permitirá conhecer esses custos antes de ampliar a número de fontes ou a frequência das coletas.

Um data lake é um repositório capaz de armazenar dados de diferentes naturezas, incluindo arquivos em seus formatos originais. Pode receber tabelas estruturadas, documentos e respostas semiestruturadas, como JSON. Sua função, nesta proposta, será preservar os materiais obtidos e permitir tratamentos posteriores, sem perder a referência ao que foi recebido. 

A organização prevista será dividida em três camadas. A primeira conterá os dados brutos e a documentação de origem. A segunda receberá versões validadas e padronizadas. A terceira reunirá conjuntos preparados para usos específicos, a serem definidos nas próximas etapas. Essa lógica se aproxima da arquitetura conhecida como bronze, silver e gold, baseada no refinamento progressivo dos dados.

No início, o trabalho se concentrará na camada bruta e no catálogo. A estrutura de armazenamento deverá distinguir entre fonte, conjunto, período de referência e versão de coleta. As transformações serão realizadas em cópias derivadas. Também será necessário prever cópias de segurança, permissões de acesso e mecanismos de recuperação.

Um data warehouse poderá, posteriormente, atender a consultas sobre dados estruturados e integrados. O data lake preserva a flexibilidade para receber diversos tipos de dados; o warehouse organiza os dados para usos analíticos definidos. A escolha de componentes adicionais dependerá das necessidades observadas durante o desenvolvimento. 

O catálogo será o instrumento para descobrir o que há no repositório e compreender como cada conjunto pode ser utilizado. Seus registros deverão vincular o conteúdo armazenado à documentação, às versões e às condições de acesso.

Propomos uma ficha mínima com nome e descrição do conjunto, instituição responsável, endereço da fonte, método de coleta, formato, campos disponíveis, unidades de medida, cobertura temporal e territorial, classificação setorial, frequência de atualização, versão e limitações conhecidas. A ficha também indicará possíveis relações com outros conjuntos.

O vocabulário DCAT, recomendado pelo W3C, oferece uma referência para descrever catálogos, conjuntos, suas formas de disponibilização e serviços de dados de forma interoperável. Sua adoção poderá ser avaliada para evitar que o catálogo dependa exclusivamente de convenções locais. 

Essa organização também se relaciona aos princípios FAIR, apresentados por Wilkinson e colaboradores: os dados devem ser encontráveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis. Para o projeto, esses princípios orientarão a documentação e a preservação. O acesso poderá estar sujeito às condições aplicáveis a cada conjunto; FAIR não exige que todos os dados sejam disponibilizados irrestritamente. 

Armazenar os arquivos no mesmo ambiente será apenas uma parte do trabalho. A integração futura dependerá da compatibilidade entre conceitos, códigos e níveis de agregação. Por isso, a coleta deverá incluir dicionários e tabelas de correspondência, com suas respectivas versões.

A CNAE classifica atividades econômicas, enquanto a NCM classifica mercadorias. As relações entre essas classificações precisam ser examinadas no contexto de uso. No comércio exterior, também será necessário observar o significado territorial de cada variável: o município do domicílio fiscal de uma empresa não corresponde necessariamente ao local de fabricação do produto. A documentação do MDIC explicita esse recorte na base municipal. 

Outras diferenças envolvem valores monetários, unidades físicas e periodicidades. Nesta fase, o objetivo será documentá-las e preservar os elementos necessários para decisões metodológicas posteriores. Uma coleta bem planejada mantém disponíveis as informações de que a integração dependerá.

Os data spaces ampliam a proposta de compartilhamento entre organizações. Segundo a International Data Spaces Association, trata-se de um ambiente de troca de dados confiável, apoiado por governança acordada, políticas, modelos semânticos, protocolos e serviços. Seu funcionamento pressupõe decisões sobre os participantes, o acesso e as condições de uso. 

Um data lake e um data space desempenham funções distintas. O primeiro pode constituir o repositório de uma organização. O segundo organiza relações de compartilhamento entre os participantes, podendo utilizar diferentes infraestruturas e mecanismos de acesso. Uma base central de arquivos públicos, por si só, ainda não constitui um data space. 

No horizonte do projeto, esse conceito permitirá investigar a participação de empresas, universidades e entidades industriais em um ambiente colaborativo. Dados públicos poderão compor uma base comum, enquanto as contribuições organizacionais dependerão de acordos e controles próprios. Essa possibilidade será examinada à medida que houver participantes e requisitos concretos.

A série de artigos acompanhará as decisões de projeto e as evidências produzidas em cada etapa. A coleta inicial deverá resultar em um catálogo, um conjunto delimitado de fontes e uma especificação reproduzível de aquisição e de preservação. Nas etapas seguintes, serão examinadas a execução das rotinas, a qualidade dos dados e as condições de integração.

Uma questão orientadora para a pesquisa é: como estruturar a aquisição, a catalogação e a governança de dados industriais provenientes de fontes heterogêneas para sustentar uma futura plataforma de inteligência? Inicialmente, poderemos avaliar a completude dos metadados, a confiabilidade das coletas e a capacidade de identificar versões e de reconstruir a origem dos arquivos.

A IA poderá auxiliar na leitura de documentação, na elaboração de descrições e na programação de rotinas. Esses usos deverão ser conferidos com as fontes e os arquivos recebidos. O papel da IA no apoio à decisão será investigado quando houver uma base organizada e requisitos de uso definidos.

A intenção é avançar com entregas que possam ser examinadas e aprimoradas. O primeiro resultado esperado será uma base documentada, com rotinas de atualização e registros de origem. A próxima publicação poderá apresentar o catálogo delimitado e a implementação das primeiras coletas, mantendo visíveis as escolhas e as dificuldades que orientarão o desenvolvimento da plataforma.

Referências

  • IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. API de dados agregados do IBGE. Documentação da versão 3. Disponível em: Documentação da API. Acesso em: 26 out. 2026.
  • BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Estatísticas de Comércio Exterior em Dados Abertos. Disponível em: Bases de dados do Comex Stat. Acesso em: 26 out. 2026.
  • BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Microdados RAIS e CAGED. Disponível em: Microdados e orientações de acesso. Acesso em: 26 out. 2026.
  • CHANG, Wo L.; GRADY, Nancy. NIST Big Data Interoperability Framework: Volume 1, Definitions. Gaithersburg: National Institute of Standards and Technology, 2019. NIST Special Publication 1500-1r2. DOI: 10.6028/NIST.SP.1500-1r2.
  • MICROSOFT. What is a data lake? Azure Architecture Center. Disponível em: Conceito e arquitetura de data lakes. Acesso em: 26 out. 2026.
  • MICROSOFT. Implement medallion lakehouse architecture in Microsoft Fabric. Microsoft Learn. Disponível em: Arquitetura medallion. Acesso em: 26 out. 2026.
  • W3C — WORLD WIDE WEB CONSORTIUM. Data Catalog Vocabulary (DCAT) — Version 3. W3C Recommendation, 22 ago. 2024. Disponível em: Recomendação DCAT 3. Acesso em: 26 out. 2026.
  • WILKINSON, Mark D. et al. The FAIR Guiding Principles for scientific data management and stewardship. Scientific Data, v. 3, artigo 160018, 2016. DOI: 10.1038/sdata.2016.18.
  • INTERNATIONAL DATA SPACES ASSOCIATION. What is a Data Space? IDSA Rulebook. Disponível em: Definição e fundamentos dos data spaces. Acesso em: 26 out. 2026.

*Imagem de capa: Depositphotos.com

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Éderson de Almeida Pedro

Éderson de Almeida Pedro

Inovação e Inteligência Artificial

Sou doutor em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), empreendedor, CEO da GAUTICA, professor e desenvolvedor de software, com mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia. Minha atuação conecta inteligência artificial, inovação e transformação digital às necessidades das organizações.

Minha pesquisa de doutorado concentrou-se no desenvolvimento e na avaliação de uma arquitetura de inteligência artificial centrada no ser humano para apoiar controles administrativos em segurança e saúde ocupacional. Investiguei como explicabilidade, supervisão humana e rastreabilidade podem apoiar a avaliação de recomendações de IA e preservar a responsabilidade dos profissionais nas decisões.

Na educação, leciono inteligência artificial aplicada em cursos de MBA, aproximando seus fundamentos das aplicações na gestão e nos negócios. Também ministrei aulas no Mestrado Profissional em Engenharia de Produção e capacitei centenas de programadores. Como mentor de inovação na Junior Achievement, orientei jovens no desenvolvimento de projetos de empreendedorismo, conectando conhecimento, tecnologia e prática empresarial.

Atuo como palestrante e consultor em inteligência artificial e transformação digital, apoiando empresas na integração dessas tecnologias às suas estratégias e processos. À frente da Edertec Academy, desenvolvo iniciativas de formação para preparar profissionais para a aplicação crítica e responsável das tecnologias digitais.

Neste espaço, compartilho análises e aplicações da inteligência artificial na indústria, aproximando pesquisa científica, experiência empresarial e formação profissional.

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