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Inteligência artificial na indústria e o valor do controle humano significativo

Por: Ederson de Almeida Pedro      Exclusiva

A inteligência artificial pode apoiar decisões industriais, mas o valor de suas recomendações também depende das condições que permitem aos profissionais avaliá-las e intervir. Uma resposta bem escrita ou uma previsão apresentada com segurança ainda precisa ser confrontada com dados, requisitos técnicos e circunstâncias de operação. Para as empresas, desenvolver essa capacidade de avaliação é parte da implantação da tecnologia. O conceito de controle humano significativo ajuda a compreender como organizar essa relação e a transformar a interação com a IA em uma prática de tomada de decisão responsável.

Imagine uma situação hipotética de manutenção. Um sistema recomenda ampliar o intervalo de inspeção de um equipamento porque os registros disponíveis indicam estabilidade. O técnico responsável, porém, sabe que a máquina passou a operar com uma matéria-prima diferente e que essa mudança ainda não foi incorporada à base de dados. Ao questionar a recomendação, ele acrescenta uma informação relevante. Para que sua participação tenha efeito, o processo precisa permitir a revisão da análise e a suspensão da alteração até que haja condições de decidir. O conhecimento do profissional ganha valor quando consegue influenciar o resultado.

Dois trabalhos recentes oferecem perspectivas complementares para examinar essa situação. A pesquisa de Yijia Shao e colaboradores, divulgada pela Stanford Human-Centered Artificial Intelligence em outubro de 2026, analisa a colaboração entre pessoas e IA em cerca de 250 mil conversas.

Já Chengke Liu e Wei Xu discutem, no texto "Human-controllable AI: Meaningful Human Control", as condições para que seres humanos mantenham controle significativo sobre sistemas de inteligência artificial. O primeiro investiga padrões de interação; o segundo desenvolve uma discussão conceitual sobre compreensão, intervenção e responsabilidade. Aproximar essas perspectivas permite formular implicações práticas para a indústria.


No estudo de Shao e colaboradores, a colaboração conduzida pelas pessoas predominou, e a fricção apareceu em aproximadamente metade das conversas. Os autores consideram produtivas as situações em que as dificuldades na interação levam a esclarecimentos, refinamentos ou aprendizado. Esses resultados sugerem que o questionamento merece atenção no desenho dos processos com IA. São, contudo, padrões inferidos por meio de análise automatizada de conversas de um serviço específico, com base em dados agregados. Eles não demonstram que uma recomendação foi executada corretamente, que houve aprendizagem duradoura ou que a produtividade industrial aumentou.

Para uma empresa, a aplicação dessa ideia começa por reconhecer o valor de uma divergência bem fundamentada. Em outro exemplo hipotético, um analista da qualidade recebe uma hipótese de causa para um defeito recorrente e identifica que a IA desconsiderou uma troca recente de fornecedor. Solicitar que a hipótese seja revista à luz dessa informação pode tornar a investigação mais pertinente. O benefício potencial está em revelar uma lacuna e orientar sua verificação. A resposta revisada continuará exigindo confronto com as evidências do processo produtivo; a concordância entre a pessoa e o sistema não substitui essa verificação.

O controle humano significativo amplia essa discussão. Na abordagem de Liu e Xu, o conceito envolve a compreensão humana, a capacidade de intervenção e a rastreabilidade da responsabilidade, apoiados pelo desenho tecnológico e pela governança. Isso exige considerar se o profissional dispõe das condições necessárias para exercer seu papel. Uma aprovação pode ser apenas uma formalidade quando faltam informações, tempo ou autoridade para questionar o resultado. A empresa precisa avaliar o que o responsável consegue efetivamente fazer antes que a recomendação produza consequências.

Compreender o suficiente para avaliar uma recomendação não exige que todo usuário domine a matemática do modelo. Exige, conforme a tarefa, acesso às informações que sustentam a decisão: quais dados foram considerados, quais premissas foram adotadas, quais condições de aplicação precisam ser verificadas e onde há limitações. Em uma aplicação de apoio à segurança ocupacional, por exemplo, uma medida sugerida deve ser avaliada em relação à atividade, à exposição e às características reais do equipamento. Uma justificativa plausível gerada por IA deve ser corroborada por documentos e evidências pertinentes.

Intervir também precisa ser uma possibilidade concreta. No exemplo da manutenção, o técnico deve conseguir registrar a informação ausente, solicitar uma revisão e encaminhar o caso para avaliação especializada. Se a alteração já tiver sido executada automaticamente e o profissional só puder observá-la depois, a revisão terá outra função e outro alcance. Por isso, a organização precisa definir previamente os limites da autonomia do sistema, os pontos de decisão e os procedimentos para lidar com exceções. Em processos rápidos, essas condições dependem especialmente do projeto e da validação prévia à operação.

A fundamentação clássica de Santoni de Sio e van den Hoven contribui para a compreensão dessa dimensão organizacional. Os autores apresentam duas condições para o controle significativo: tracking, relacionada à resposta do sistema às razões humanas relevantes e aos fatos do ambiente; e tracing, vinculada à possibilidade de relacionar os resultados a pessoas na cadeia de desenvolvimento e operação que satisfaçam as condições pertinentes de responsabilidade. Essa perspectiva ajuda a evitar que toda a responsabilidade recaia sobre quem faz a última aprovação, ignorando as escolhas anteriores relativas a dados, ao projeto e à implantação.

Na prática industrial, os registros de interação podem apoiar esse acompanhamento. Documentar a recomendação inicial, as informações acrescentadas, as alterações e a decisão final permite reconstruir o percurso de uma análise. Esses registros também podem revelar problemas recorrentes: dados desatualizados, recomendações pouco adequadas a determinados equipamentos ou situações que exigem apoio especializado. O registro de um clique, isoladamente, não comprova compreensão nem torna a decisão correta. Seu valor depende da qualidade das informações preservadas e do uso que a organização faz delas para revisar seus processos.

A aproximação entre os dois trabalhos conduz a uma proposta de gestão: desenhar a colaboração e o controle em conjunto. Uma interface que incentiva perguntas terá alcance limitado se a empresa não permitir mudanças na decisão. Da mesma forma, a autoridade para rejeitar uma recomendação será insuficiente quando o profissional não tiver acesso às evidências necessárias para avaliá-la. O funcionamento desse arranjo depende também de capacitação e de condições de trabalho que tornem viável a revisão. Essas são implicações propostas para o contexto industrial, cuja efetividade precisa ser avaliada em cada implantação.

Uma forma de começar é selecionar um fluxo delimitado, como a elaboração de recomendações de manutenção ou o apoio à análise de não conformidades. A empresa pode definir o que a IA está autorizada a sugerir, quais evidências devem ser verificadas, quem decide e quando o caso deve ser encaminhado a um nível técnico superior. Durante o piloto, a avaliação pode considerar a qualidade das decisões em amostras revisadas por especialistas, os erros identificados, o retrabalho e o tempo despendido. Aceitações, edições e rejeições ajudam a compreender o uso, mas precisam ser interpretadas em conjunto com essas evidências.

O aprendizado profissional também merece acompanhamento. Pedir à IA que explique uma hipótese pode apoiar o desenvolvimento de conhecimento, desde que a explicação seja examinada e discutida. A empresa pode verificar se os profissionais conseguem justificar suas escolhas, reconhecer seus limites e atuar quando o sistema não está disponível. Assim, a capacitação inclui o julgamento necessário para decidir quando utilizar uma recomendação, quando buscar informações adicionais e quando recorrer a outro especialista.

Para a indústria, o benefício potencial dessa abordagem reside na capacidade de combinar a análise oferecida pela IA com o conhecimento contextual e a responsabilidade dos profissionais. Isso pode apoiar a identificação de informações ausentes, o tratamento de exceções e a revisão de decisões, desde que os resultados sejam acompanhados. O controle humano significativo oferece um critério concreto para orientar essa evolução: verificar se as pessoas dispõem de compreensão, condições de trabalho e autoridade suficientes para influenciar as decisões às quais respondem.

Essa capacidade precisa fazer parte do projeto de adoção da inteligência artificial desde o início.

Referências

*O conteúdo e a opinião expressa neste artigo não representam a opinião do Grupo CIMM e são de responsabilidade do autor.

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Ederson de Almeida Pedro

Ederson de Almeida Pedro

Inovação e Inteligência Artificial

Sou doutor em Administração pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), empreendedor, CEO da GAUTICA, professor e desenvolvedor de software, com mais de 20 anos de experiência no setor de tecnologia. Minha atuação conecta inteligência artificial, inovação e transformação digital às necessidades das organizações.

Minha pesquisa de doutorado concentrou-se no desenvolvimento e na avaliação de uma arquitetura de inteligência artificial centrada no ser humano para apoiar controles administrativos em segurança e saúde ocupacional. Investiguei como explicabilidade, supervisão humana e rastreabilidade podem apoiar a avaliação de recomendações de IA e preservar a responsabilidade dos profissionais nas decisões.

Na educação, leciono inteligência artificial aplicada em cursos de MBA, aproximando seus fundamentos das aplicações na gestão e nos negócios. Também ministrei aulas no Mestrado Profissional em Engenharia de Produção e capacitei centenas de programadores. Como mentor de inovação na Junior Achievement, orientei jovens no desenvolvimento de projetos de empreendedorismo, conectando conhecimento, tecnologia e prática empresarial.

Atuo como palestrante e consultor em inteligência artificial e transformação digital, apoiando empresas na integração dessas tecnologias às suas estratégias e processos. À frente da Edertec Academy, desenvolvo iniciativas de formação para preparar profissionais para a aplicação crítica e responsável das tecnologias digitais.

Neste espaço, compartilho análises e aplicações da inteligência artificial na indústria, aproximando pesquisa científica, experiência empresarial e formação profissional.

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