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Um Grand Canyon Industrial - A vez dos moveleiros na era da indústria 4.0

Uma abordagem comparativa entre os segmentos metalmecânico e moveleiro no que tange os benefícios, desafios e oportunidades da industria 4.0.
03/02/2019

Nos últimos 10 anos tenho trabalhado como consultor em inúmeros segmentos industriais: Metalmecânica, Moveleiro, Distribuidoras, Bebidas, Injeção, Madeiras e por aí vai. As atuações foram disseminadas em vários setores da cadeia produtiva: implantação de novas linhas de manufatura altamente tecnológicas e de precisão; projetos para aumento de performance e redução de custos; desenvolvimento de softwares para solucionar problemas pontuais; mapeamento e simulação de novos processos; implantação de sistemas de gestão; integração de produção por códigos de barras e tantos outros projetos. Cada segmento com suas peculiaridades e cada um com uma forma diferente de conduzir as decisões estratégicas para atender seu público e necessidades de crescimento (às vezes de sobrevivência). Ao se permear por diferentes segmentos, nós podemos perceber as discrepâncias entre eles, que muitas vezes saltam aos olhos de quem, como eu, tende a uma visão analítica e sistêmica. Vou falar aqui de uma situação que tenho vivido e que acredito ser digna de uma bela reflexão.


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Eu tenho um amigo ao qual por muitos anos presto trabalhos de consultoria em sua indústria de móveis planejados. Entre os anos de 2009 e 2011 esses trabalhos foram alternados entre projetos em uma empresa de fabricação de componentes automotivos. De um lado eu estava participando da implantação de uma linha totalmente robotizada, com 28 equipamentos CNC’s vindos de todos os cantos do mundo, praticamente sem contato manual durante a produção, com tackt time de 36s, precisão medida em micros, equipamentos óticos de controle de qualidade, profissionais altamente capacitados e laboratório exclusivo para testes. Do outro lado, eu estava gerenciando um projeto em uma indústria moveleira de médio porte, que estava migrando do conceito de marcenaria para o conceito industrial – estavam saindo as circulares e tupias e entrando as seccionadoras e centro de usinagem.

Em meio a este cenário, mais de uma vez eu comentei com meu amigo moveleiro – “Há um abismo entre a indústria Metalmecânica e a moveleira e a que está do melhor lado não é a do segmento que você atua”. Um abismo em tecnologia, em metodologias de produção, em controle de qualidade, em automação, em planejamento da produção, em eficiência produtiva, em geração de indicadores e o que se faz com os indicadores. Enfim, um Grand Canyon industrial. Em uma passada rápida de olhos entre os dois modelos de negócio fica evidente qual o asteroide que causou esse abismo. A produção em série, de precisão, com grandes lotes de produção e poucas variações contrastava a olhos vistos com a produção customizada, com quase infinitas variações, pequenos lotes de produção e projetos que ficavam obsoletos em curto espaço de tempo. Ora, essa última definição não nos soa familiar? Não está de mãos dadas com o que se lê e se ouve por aí sobre um novo conceito industrial e social chamado de a Quarta revolução Industrial, ou Indústria 4.0? A resposta é meio que sim. Meio que sim, porque a Quarta Revolução Industrial não se restringe à customização ou à flexibilização da produção, pelo contrário, vai infinitamente além, mas no contexto de nossa análise tem tudo a ver.

Ao estudar sobre as tendências que permeiam a Indústria 4.0 pelo mundo, é nítido que atender o desejo de seus clientes de maneira cada vez mais customizada é um caminho sem volta. Mas peraí, falamos logo acima que o segmento metalmecânico estava no lado bom do abismo por elevar a eficiência com a premissa de produção de grandes lotes e pouca variação. Agora, a tendência mundial leva a eficiência em segundo plano, perdendo posição para a customização? Olha, da pra dizer que sim. O indivíduo está sendo melhor ouvido e, consequentemente, melhor atendido. Os clientes estão mais exigentes, não só com o produto em si, mas também pelo serviço que o acompanha. Então, vou usar aqui as palavras da minha avó, que seriam mais ou menos assim: “as empresas que se cocem”. Pois bem, é neste cenário que a indústria moveleira já vem se coçando a muito tempo. A indústria moveleira, com mais intensidade a de móveis planejados, tem como um dos pontos fortes – não confunda com pontos diferenciais por se tratar de uma premissa obrigatória – é atender seu cliente de acordo com seu gosto, seu momento, sua personalidade e seu poder de compra. Esse segmento, portanto, precisa ter seu modelo de negócio e todos os processos modelados para serem flexíveis, com ajustes rápidos, suportando milhares de variações e ciclo de vida dos produtos reduzidas a quase um espirro. Dessa forma, um dos pilares da Indústria 4.0 – a customização em massa – já está no lado do abismo onde a indústria moveleira se encontra.

Agora, pode ser a vez dos moveleiros. Eu disse “pode ser”, pois o abismo já não é mais um gigantesco Grand Canyon, mas certamente ainda há uma distância – talvez um Canyon Guartelá. Então, para que não se perca o bonde, ações devem ser tomadas agora. A luta não é fácil meu amigo, mas o caminho já está traçado. Os empresários devem olhar para fora do seu ramo de atuação; devem contemplar as novas soluções de conectividade industrial e residencial. A primeira, para ingressar sua empresa de vez na nova era. Já a segunda, para tornar seus produtos parte disso tudo. Se as empresas moveleiras traçarem estratégias bem definidas, abrirem a mente para o mundo 4.0, buscarem soluções e forem fiéis à aplicação delas, daqui um tempo os Canyons serão só mais um acidente geográfico e um lugar turístico.

Produzido por:

ALEXANDRE BETIATTO

Experiência nos últimos 15 anos em Softwares de Sistemas de Gestão, indústria Moveleira, Metalmecânica, Siderúrgica, além de diversos projetos desenvolvidos em empresas de diferentes segmentos. Minha formação é em Engenharia de Produção pela PUC-PR, estou cursando Pós-graduação em Engenharia Indústria 4.0 pela UFPR e possuo experiência consolidada na área de mapeamento e simulação de processos com foco em melhorias que resultem em ganhos, implantação de Sistemas de Gestão (ERP), projetos de inovação, desenvolvimento e implantação de projetos para otimização e automação, definição e implantação de arranjos produtivos, construção e otimização de layout de processos produtivos, instalação de planta fabril e formação, gerenciamento e treinamento de equipes.


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